!> !> Pulmão Cabeludo
Um ser que participa do Todo e tem saudade do tempo que não foi, mas sabe que um dia nele irá se desmanchar, e flutuar. Porquanto participo da sopa divina.


























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Pulmão Cabeludo
Alea jacus est
sexta-feira, dezembro 12, 2003
A arte e seu fim

Como disse, não fico exigindo da música coisas tão absurdas como um ganho futuro, seja qual for este ganho. Também não assisto a um filme porque ele me promove uma experiência enriquecedora. Para mim, a única experiência enriquecedora é ganhar na loto. Em suma, nunca tive nesta minha longa vida absolutamente nenhuma experiência enriquecedora, aliás, nunca terei – não jogo na loto, não participo de bingo.

Tudo bem. Sei que exagero. Apesar de limpar a garganta para declarar que é besteira exigir da arte algo mais do que o simples prazer de consumi-la, vira e mexe me pego em flagrante – chacoalhando, como uma besta, a obra de arte, querendo dela algo mais do que o delicioso sabor de seus frutos. E lá estou eu, outra vez, buscando nela uma utilidade que, para falar bem a verdade, nem sei qual é. Você não sabe qual é? Não. Mas isto não me espanta. Sinto que sempre busquei algo que nunca soube o que é. Talvez seja uma resposta a minha angústia, uma forma de preencher o vazio interior. Talvez seja Deus. Quem sabe não é dinheiro? Rola não é, garanto.

De qualquer forma, pensando melhor, não há problema nenhum nisso. Ocasionalmente podemos, quem sabe, fazer uso, num boteco, de uma boa tirada roubada a um livro.

Péssimo exemplo? Então deixa eu dar um pior.


Soltar aquela frase de efeito, “inteligentíssima”, na hora exata em que aquela gostosinha pousa sua bunda na roda de cerveja. ( Sim, estou consciente de que mil frases daquela não valem para a garota uma única música do Djavan, tocada com beiços trêmulos pelo picareta, que sempre está ao seu lado.)

A arte pode até ter uma função, como por exemplo, servir de isca às mulheres, servir de ganha pão a professores universitários, críticos, jornalistas, ou até mesmo para a classe média de barbichinha chafurdar em suas pretensões intelectuais.

Mas, de qualquer forma, estes valores são valores secundários e mesmo, desnecessários. Que essa obsessão de desentranhar todas as coisas em busca de uma utilidade, ou de uma finalidade, ou de uma instrumentalidade, já deixou de ser coisa de perobo, e passou a ser uma doença bem vaporosa, tão vaporosa que nem se percebe amarrada ao uso dos prazeres.

É ela que faz a horda galopante de universitários não encontrar em Machado outra coisa que não a nudez das classes dominantes. É ela que faz gente apreciar o apocalipse só depois de ter a ilusão do entendimento, quando o dragão travestido ovelha passa a ser o poder de persuasão, a mídia, o meio de comunicação, a propaganda enganosa, o coala-peixe-pássaro-mutante, etc.

Parte dois: soluções

Então siga o exemplo de Carlota, aproveite o dia, seja feliz, olhe para os lados e entenda de uma vez por todas que você não está aqui de livre e espontânea vontade.

O desespero de estar vivo, foi este o gosto de Carlinha.

Já Débora olhou para si, e incorporou a festejante irracionalidade que freme em cada átomo de sua consciência.

Catarina, por sua vez, era dessas tipo assim: relaxa e goza.


1:39 AM


sábado, dezembro 06, 2003

5:08 PM


quinta-feira, dezembro 04, 2003
Quando

Estava na praia, tanguinha à mostra, sobre a areia, olhando uma conchinha. O mar soprava bravo a uns cem metro na sua frente. Na conchinha, simetrias estranhas e belas. Na noite, sublime, infinitas estrelas.

A tanguinha na areia. As estrelas no céu. As ondas no mar bravo.

O planeta Terra gira sobre si mesmo para se bronzear por igual, e de vez em quando faz sombra fresca na Lua. As línguas chamam de eclipse um gosto natural por água de coco.

A noite era negra, cheia de estrelas. E negra era a mulher por trás da tanguinha. Negra e magra. Uns setenta anos. Sentada, na praia de Santos, na virada do ano. Uma barulheira infernal. Uma multidão em torno dela. Pintos alcoolizados mijavam em derredor.

Um cheiro putrefato. Peixes e restos humanos. E o mar, muito bravo, espumava sal cisne. A mulher negra de nariz adunco, banguela, fitava a conchinha. Mas não enxergava bem. Rotas retinas ressecadas por trás de uma inocente tanguinha azul.

Vinte anos atrás ficou conhecida na França, dançarina famosa de rítimos exóticos, sangue cheio de paixão tropical. Por dinheiro graúdo, e só nesse caso, passava a noite com um homem qualquer que ela escolhesse dentre tantos pretendentes.

E hoje a encontramos alí, só, em meio de milhares de homens e de estrelas, fitando um mistério transparente. O da simetria estranha e bela da conchinha branca.

12:55 AM



O crítico

Voltando ao tema da arte. Nunca seria um crítico profissional por dois motivos.

O primeiro é que detestaria ficar lendo livros de que eu não gostasse. A minha grande alegria é poder ler apenas o que me dá prazer, abstendo-me da tarefa escrava de analisar, comparar, medir. Prefiro ler um livro, esquecer-me durante horas, gostar e pronto. Já o crítico não. Comporta-se como alguém que, depois de passar o dia inteiro comendo porcaria de boteco, vomita o que comeu para examinar o material. Em palavras mais macias: após passar o dia inteiro lendo rudimentos, já não tem mais saco para ler nada, nem mesmo aquilo que lhe apraz. Passado um tempo, já não sabe mais nem do que gosta. Identificamo-lo nas ruas pela tonalidade amarelada na face biliosa. O resultado final dessa tenebrosa rotina, se praticada por jovens, é o alcoolismo. Nos velhos, a cirrose.

Então o crítico nunca pode gostar do que lê?

Essa é a coisa mais estúpida que se pode pensar sobre um crítico, que ele gosta do que lê. Até hoje nunca li uma crítica elogiosa e boa, simultaneamente. A nota máxima de uma crítica confeiteira é a de corte: cinco. Já as críticas acabando com um livro ou filme ou seja lá que for, por outro lado, são as que prestam, é onde o crítico mostra seu talento. É onde deposita, em forma concentrada, como um animal venenoso, todo o ódio que acumulou do cozinheiro.

A segunda razão por que não me torno um crítico é que não tenho capacidade.

12:28 AM


terça-feira, dezembro 02, 2003
Louvor

Oh! Buda Cósmico, tú que és o Bitelo,
Acalentai minha alma ávida de elegância.

12:09 PM




A verdadeira face de pulmão cabeludo.

2:30 AM



Gorda

Gorda é uma mulher que prefere comer a ser comida.

2:28 AM



Wilhelm Reich

O neurótico é incapaz de gozar. Ou melhor dizendo, não consegue gozar gostoso. Ao menos é o que Reich sustenta. Como ele ficou sabendo disso? Prefiro não imaginar. Tudo bem, já que toquei no assunto, fica deselegante escapolir dessa maneira. Então vamos lá.

Com quantos homens e mulheres ele teve que transar para ter uma amostra estatisticamente considerável?

No mínimo uns quinhentos de ambos os sexos.

Acredito que deve ter sido muito difícil para ele conseguir sujeitos para a sua pesquisa. Talvez, pelo bem da ciência, ele tenha usado métodos não muito convencionais. Imagino que suas pesquisas eram mais ou menos assim.

Reich vai à boite começa a dançar, conhece uma mulher. Os dois vão ao motel. Acabado o fururu, entra a parte mais complicada da pesquisa. Ele deve avaliar, de algum modo, a qualidade do gozo da parceira:

“Foi bom para você?”

“Foi ótimo, eu me senti nas estrelas.”

“Você tem certeza?”

“Tenho, eu estou falando, eu adorei.”

“Mas parece que seus músculos faciais estão meio contraídos”

“O que?”

“Além disso, não sei... pode falar o que você pensa de verdade, eu não vou ficar magoado, afinal é nossa primeira vez, e todo mundo sabe, a primeira vez nem sempre é tão bom, a gente fica meio inibido, sei lá”.

“Olha, coração, eu estou falando a verdade, eu gostei muito... é, ta certo que é a nossa primeira vez, talvez dê pra ser melhor.”

“Ta vendo”

“O quê?”

“É que eu senti sua respiração um pouco contida.”

“O quê, eu achei que você estava gostando, e você ficou prestando atenção na minha respiração. Além disso qual o problema da minha respiração?”

“É que ela tava meio presa, achei que você prendia o ar no pulmão...Deixa para lá, eu posso tirar uma foto sua?”

“Uma foto? Para quê? Você já não tirou uma antes da gente fazer amor.”

“Sim, é que eu quero uma do depois, para eu recordar desse dia tão especial para mim.”

“Mas você acabou de me dizer que ficou prestando atenção na minha respiração e que a primeira vez não é tão boa assim.”

“Tudo bem, eu vou falar a verdade...”

“Já sei, você tem esposa e filhos.”

“Não, não é bem isso, é que eu estou fazendo uma pesquisa, e queria as fotos para melhor analisar os dados. Tranqüilize-se, é tudo sigiloso, você pode assinar o termo de compromisso se quiser”.

“Eu não estou acreditando, você disse que me amava?”

“Eu não disse isso.”

“Disse sim.”

Coitado do Reich! Essa sim é uma pesquisa difícil. Outra dificuldade é a construção de critérios válidos para saber se a pessoa adquiriu o gozo pleno. E caso não tenha sido pleno, saber ao menos a porcentagem de plenitude do gozo:

Reich: “Eu acho que você não gozou com todo o seu potencial.”

Mulher: “Lógico, olha o tamaninho do seu pau."

"O quê?"

"Tô brincando, Reich."

"Ah?"

"Vem cá, pára de falar besteira, me beija, vai!”

“Não, eu não estou brincando, é sério.”

“Para quê falar sério numa hora dessa, vem cá, fica abraçadinho comigo, ou então fuma um cigarro, relaxa nego.”

“Mas você não quer ter um gozo cem por cento?”

“O quê?”


2:21 AM



Morrer por amor

Um homem que compreende suas emoções se mata por amor?

Não. Um homem que realmente compreende suas emoções nunca se mataria por amor. Pois esse homem não existe.

E um homem que compreendesse um pouquinho, se mataria?

Sim, desde que ele seja um tremendo idiota. Até um catador de papel consideraria o uso deste motivo uma desculpa esfarrapada, um falso pretexto para fingir que ganhou carta branca. Mas, para falar a verdade, a resposta é não, mesmo um homem que se compreende um pouquinho não se mata.

Como assim?

Ninguém se mata pelo amor que sente por alguém. Quando se mata é por amor próprio, mais nada. É de se esperar que quando uma pessoa leva um pé na bunda ela se descabele toda, dê escândalo na garagem, essas coisas. Mas às vezes, quando o caso é grave, o narciso quer levar o teatro às suas últimas conseqüências. E morre, provando que ele era mesmo uma besta.

2:02 AM


segunda-feira, novembro 24, 2003
A realidade

Hoje sublinho a intersecção e a boa coordenação dos cinco sentidos. E
a importância de existir um outro que tenha a capacidade perceber o que percebemos.

3:20 AM


terça-feira, novembro 11, 2003
Discordância

Depois de comprar pão na padaria, fui forçado, mais uma vez, a perceber o imperioso gosto a que as pessoas têm de concordar umas com as outras. Um faz no tapete, o outro concorda de forma estranha, sobrepondo ao primeiro montinho um outro de mesma consistência. Com o auxílio de uma colher de pau que pegam na cozinha, os dois misturam os produtos e uia! percebem algo maravilhoso. A homogeneidade da substância, e o acréscimo do volume em conexão causal com evacuação posterior. Meditando friamente sobre o fenômeno, alcançam a noção que Deus é bom, tanto é, que no céu tem jogo do Verdão todo dia, e ele sempre vence.

Se se sorteasse qualquer amigo meu e extraísse dele uma opinião qualquer e a confrontasse com a que tenho em relação ao mesmo tema, a possibilidade de eu concordar seria, digamos, uns 0,2 por cento, certo? Se não discordasse no gênero, discordaria em número e ou grau. E nem por isso eles tirariam o chapéu para mim, mas, felizmente, eles também não me apedrejariam nem espumariam por isso. E o que isso comprova? Que eu não sou eles. Ademais, não acho que vale a pena gastar suco gástrico erigindo dialéticas a partir de quaisquer diferenças - como bom gosto do corte de cabelo nos anos setenta, ou que o azul é a cor mais bonita - a não ser que a dialética seja praticada por esporte, a serviço do bem viver.

Faz mister sublinhar que, além dos convivas, discordo de mais gente, para ser honesto, de todos, com exceção do Pig (sim, claro, dobro a língua para falar do Pig), e do Sol. A diferença é que acredito que meus confrades saibam argumentar sem apelar ao inviolável mistério das pirâmides ou ao sucesso da safra de almeirão em uma comunidade hippie, atestado pelos números dados pelos relatórios mensais de algum MSX, como se esses argumentos comprovassem veracidade de qualquer coisa que não seja, no fim, o alto consumo de maconha ou a necessidade da distribuição de babadores aos que usam semelhantes tipos de argumentos.

Todavia, fui alertado de última hora, não sei dizer por quem, acho que foi por Buda Cósmico ou pelo Deus Uga-Buga, que esta estória de discutir está fora de moda, o melhor é estourar a boca do inimigo com uma direita certeira. Mas e se o inimigo tiver tríceps muito avantajados e não tivermos em mãos um mísero tijolo sequer. Aí resta-nos ficar fazendo polêmica. Nossa, essa última emenda foi muito horrível! Mas vamos lá eu quero é falar da polêmica.

Repara, quando por costume ou distração ou até mesmo por maldade diz-se que um escritor é polêmico, usualmente se quer dizer muita coisa, muita mesmo, sobretudo uma, que ele é o Arnaldo Jabor ou alguém disfarçado de. Oras bolas, polêmica por polémica, sou mais o Pato Donald ou o Gabeira desfilando de tanga numa praia carioca para provar a descentralização do poder em nossa sociedade, como prega os arautos do pós-modernismo. Então eu pergunto a você, o que é ser polêmico? Não seria gerar estardalhaço com uma opinião que diverge da normalidade? Ou seria um gesto de pavonice, coisa típica de gente que camufla? Seja o que for, uma coisa é certa, para gerar estardalhaço com uma opinião divergente deve-se no mí­nimo ter um modo estiloso ou exuberante de se exprimir, e essa qualidade encontramos em muita gente famosa: no Jabor, no Pavão, no Dante Alighieri.

O negócio é separar o joio do trigo. Há muitas espécies de polemistas. Não sei quem foi que disse que rotular é coisa de reducionista. Meu Deus! Precisa de resposta! Pois que fique claro. Polêmico é apenas um predicado que se refere a algo ou a alguém que pode uma infinidade de outros predicados, o que não significa que este predicado possua, necessariamente, nenhuma primazia sobre os demais. Porém é deste predicado que trato. Então vamos seguir na tarefa de classificar as espécies de polemistas, tarefa bem besta por sinal e que eu poderia muito bem dispensar-me de fazê-la.

Em primeiro lugar, tem gente que escreve bonito mas pensa muito errado, tão errado que se torna polêmico, na medida em que suas idéias conseguem o feito quase milagroso de serem piores que a do senso comum. Mas alguns outros não só escrevem bonito como também escrevem bem, aliás, muito bem, e contudo, pensam errado, como é caso de Drummond, que era burrinho, gauche, e mimoso. Que seja escrito na pedra: a poesia é a melhor forma de disfarçar a burrice.

Mas tem gente que sabe pensar com autonomia, gente essa que costuma ter os livros empapados de suor. São mentes magní­ficas, que bravamente conquistaram o livre arbítrio às custas de horrorosas úlceras no estômago. Estes sim transcendem o meio em que vivem. Caso cheguem à mí­dia, são vistos com espanto, até o momento em que o povo percebe que são polêmicos, isto é, são amigos do Jabor. Argumentar-se-ia, talvez, que eu me empenho em polemizar a polêmica. Se você pensa isso vai tomar no cu.

Uma ressalva deve ser feita, a tí­tulo de se evitar malentendidos. No que se refere ao livre arbí­trio nos seres, acredito piamente que macacos bonobos e goianos são dotados maior liberdade de pensamento se comparado às pessoas comuns, uma vez que os pensamentos de ambos não se prendem a nada, nem a própria lógica. Não, também não seguem as leis de condicionamentos operantes nem associações humenianas, nem são organizadas por um sujeito transcendental kantiano. Suas associações, se é que tem alguma, são dadas ao sabor do momento, ou, quando muito, ditadas pelo cu.

"Esta é minha opinião, essa é sua, logo (preste atenção no logo) você me respeita, eu respeito você e estamos quites." De forma geral, quando escuto alguma atrocidade qualquer como essa, sinto um enérgico desejo de chorar. Na verdade, para ser sincero com você, sinto vontade de rir. Meu cérebro ri, mas minhas expressões faciais e o tremor em meu corpo não me denunciam, ou assim espero. Ou será que não é nada disso?- paciência, estou querendo ser sincero com vocês. Vamos lá, pensemos com calma, bom, já sei, devo fazer uso, aqui, de uma expressão que embora bem batida, está ainda intacta em seu teor de verdade: depende do caso.

Em alguns casos sinto de fato vontade de chorar, em outros, de rir, em outros, de vomitar. Mas se argumento é a bunda, de retrucar com argumento do mesmo quilate, dar nela um chute estralado com o peito do pé,- não, não, depende da bunda - que cada bunda ganhe aquilo que merece, e a melhor, aquilo que endurece. Sinto-me na oitava série.

Estou meio enrolado hoje. E isso, acredito eu, é conseqüência direta de meu estado de ser-no-mundo-hoje. Meu barômetro espiritual acusa excesso de vapor na alma. Meu instinto de sanidade, sempre apoiado na ciência, me diz que é melhor parar antes que o vapor se condense e comece a infiltrar na pineal, porque aí já era. Além do mais não agüento mais ficar sugerindo, sugerindo, blá, blá, blá, finhôum, nhunhunhu. Gostaria de ser alguma outra coisa que não eu mesmo, gostaria de ser mais juscelino. Ta aí­, me chamem de juscelino, eu gosto.

2:17 AM


terça-feira, novembro 04, 2003
Falação

Alguns professores de cursinho sustentam, com razão, que a descrição Guimarães Rosa do sertanejo ultrapassa o regionalismo rasteiro e vai parar naquela dimensão clássica, onde se pode avistar o homem universal, despido de seus acidentes históricos e geográficos.

Encontrei certo escritor que fez o mesmo. Ao invés de um sertanejo desdentado da divisa Minas-Bahia, uma bucetinha adolescente no interior paulista, alguns pelinhos irrompendo na região pecaminosa, classe média, bemformada na moral de um time de vôlei.

Das calcinhas e alguns elementos rosados? Bom, como estava dizendo, não faz tanto frio hoje.


2:30 AM



Quando Byron e as bacantes se encontram

Tive um amigo que bebeu vinho no crânio de uma criança que veio a falacer no começo do século, tal como constava na tumba que ele violou. Era uma noite horrível, umas três cigarras piavam no quintal. Bebeu, confesso, quantidades assombrosas de um vinho que, se não me falha a memória, era Chapinha.

Uma hora depois, estava exaltando o poder criador de Dioniso. No auge, mais parecia um corifeu euripidediano, sentindo em cada poro as voluptuosas vibrações dos velhos bacanais. Terminou abraçando, abraçando a privada. Como pode se perceber era homem polido. Hoje em dia quantas pessoas têm a classe de vomitar na privada?

2:08 AM



O ateísmo

O ateísmo de Nietzsche merece mais consideração. É um ateísmo heróico. Pretende valorizar a vida, apesar de sua infinita nulidade.

O que me parece é que o único heroísmo é dançar na escada rolante, quando esta desemboca no Habibs. Não sei de Nietzsche ter feito isso nem de ter se travestido na trincheira. Pelo contrário, ficou isto sim delirando potências na enfermaria, com roupinha de enfermeira do biscate do funk, pagando boquete e limpando a sujeira com o bigode, o que, é verdade, não deixa de ser ato um tanto heróico.






1:59 AM



Nada é mais real que nada


1:51 AM



Universo

Concluo, depois de tediosas reflexões, que se debruçar sobre o universo é mais uma perversão moderna. Afirmar que existem não sei quantas estrelas e daí extrair que somos uma poeira perdida no cosmos, um nada, é forte índicio de transtorno de personalidade que merece cuidados psiquiátricos. O melhor tratamento, neste caso, não tenho dúvida, é a lobotomia.

O universo é só mais uma idéia, no meio de milhares. Encontrar alguma primazia nesta minúscula fatia do ser é como estufar o peito de pombo premiado para dizer como é a África, tendo como única fonte de informação um macaco bonobo do zoológico de São Paulo, cujo bisavô era patriarca numa aldeia no Zaire.

1:43 AM



Louvações a um dia fácil


Ontem foi um dia fácil. Um dia muito fácil. Tudo é muito fácil. Facílimo.

1:33 AM


terça-feira, outubro 21, 2003
A pedra

Queria a sua substância de carícias e plumas. Um blog que suavizasse o corpo e inflasse de alegria o coração.

Vivo com os seres, neles me misturo e me confundo. Convivo com meus amores, com meus amigos. Convivo com você. Neste instante, que não é banal. Não é apenas mais um instante.

O instante que permanece,
cravado no corpo,
rocha porosa boiando,
no espaço infinito.

Tocaram fogo na casa do goiano.

Leio o jornal. Pesa pouco em minhas mãos e tem fotografias. É áspero e surge dentro da varanda de manhã. O tamanho das letras das manchetes sugerem a importância do assunto tratado. Os jornalistas podem espumar. Mas sua existência depende do jornal, e mais, da mídia, e mais, de um veículo - sim veículo – de transmissão de idéias e de valores.

A Bolívia é grande: a cocaína derrubou o presidente.

Se não fosse o entregador de jornal, não seria tão fácil, tão prático para mim.

Vem de bicicleta ou vem moto? Não sei.

Classe média não é.

Estou interessado nele?

Sim.

Ele é meu irmão e isso às vezes dói, mas não tanto quanto o menino vendendo biju.

“Ô tio, compra um biju para me ajudar.” Diz o menino, adolescente, uns quinze anos, preto, magro, caixa de biju na mão, ausência de escola pública, ajudar nas contas da mãe. Nenhum traço de heroísmo estampando na cara. Nenhum sinal de casa.

Que casa?

“Então moeda serve, tio.”

De dentro do carro, os dedos sinalizam não. Sou eu. Boca não fala. Boca cheia. Mão cheia. Estou comendo uma baguete de tomate seco, com presunto e mussarela, e só posso balançar os dedos em sinal de recusa. Dinheiro que escorregou fácil do bolso para o estômago. Mas uma recusa.

Recusa, para mim, foi o que aquela menina me fez, quando tinha quatorze. Negou o meu amor.

Negou o meu amor próprio. Negou meu próprio amor. Negou meu papo, meu sapo, meu taco. Cuspiu no bolo que demorei três dias para elaborar.

E assim a ressaca doe mais que a fome na Somália.

Portanto:

Digamos adeus ao intimismo babaca.
Digamos adeus ao conhecimento infeliz.
Digamos sim ao ódio frio, bem dirigido.
Digamos sim a Jesus Cristo, nosso senhor.
Digamos sim à negação de Deus.

Convoquemos o egoísmo esclarecido.
Todo homem com direito à piscina.

Ou eu ou Deus.

A era dos aleijados vem passando. Avistamos milhões deles pela janela. Jogam ao alto as bengalas e trovoam potentes estrofes.

Às oito horas da noite o menino do biju está
revirando lixo,
abraçando rato,
rolando com os porcos,
vendendo armas,
juntando coragem, ódio e pulgas.
sonhando Crack crack gostoso

Ao deus da poesia curta usaste a máscara,
e usando-a, absteve-se de toda a proteção.
Fingindo aproxima-te de ti.

Na aurora do meio pro começo,
mirou o instante de um ângulo estranho.
Tinha beleza e tragédia.
Grandeza e miséria.
Leveza e perdão.

A brisa estúpida acariciava a pele,
convidando os nervos da nuca
a um relaxamento total.

A mãe de Ivone se corroeu ao ver a filha de batom vermelho.
A moça, mais parecia menina,
Já não agüentava mais tropeçar.
Lágrimas absorvidas na terra,
formam gotas de barro no chão,
imprestáveis, inúteis.

Mercado de trabalho.
Beijo mecânico.
Patrão de bigode.

Ele não é gente boa.
Mas conheço gente boníssima no mundo.

Hoje canto a quem é gente boa.
Tem gente boa no mundo.
Só não vale abusar.
Exigir perfeição.

Dança na boite todo sábado,
Semana passada conheceu um cara legal.
Músculos no braço, voz mansa.
A boca da flor se abre em mil pétalas.
Molhada, úmida, perfeita.

Ela não sabe que ele será o pai de seus filhos.

Relaxa nego, relaxa.
A noite passa de mansinho.
Sem pressa.

Se a tempestade vem,
Que venha!
Molhado de chuva é melhor.

E fundido no silêncio de granito,
a morte já não te estremece.
Fecundas, sente orgasmo e diz adeus.

12:34 AM


terça-feira, outubro 14, 2003
Um grande poeta desconhecido

Um poeta brasileiro muito desconhecido, um certo Roberto Oliveira, teceu algumas poesias exaltando a classe média brasileira, para o espanto dos críticos e intelecutais, e o assombro dos ricos.

Ah! Classe média, quanto conforto em seu seio!
Churrasco de picanha, escola particular.
Bons filmes na locadora.
Água potável, medicina.
Dentes brancos,
Sabadão sorrindo
Digestão domingo.

Alguns especialista apontaram, com certo alarde, para o carater corrosivo, bomba atômica social. Nada mais despropositado, descabido. Quem já ouviu falar de Roberto Oliveira sabe que ele é homem tranqüilo, embora tenha pretações e contas a pagar. Mas sempre o temos sorrindo para a vida, cantando a classe média, que no fundo é um cantar a si mesmo.

A poesia não é sua fonte de renda. Tece versos com amor, um amor classe média, de alguém que não esbanja nem vive na miséria. Mentira dizer que ele luta para ser rico. Prefere esperar, se algum dia acontecer: "Que bom!" Diria ele. Mas não se pode falar muito de um poeta, melhor lê-lo. Só assim poderemos compreender que a classe média tem um arauto, um profeta, um homem simples. Ouvi dizer que é bom cozinheiro e que tem uma filha linda.

É isso.

2:54 PM



Barômetro espiritual

Uma idéia que faz um tempo que me acompanha e me inebria é a do Barômetro Espiritual, de um tal E.T. A. Hoffmann, romântico incurável, homem inteligentíssimo, grande escritor alemão, pai de família incomparável. Deparei-me com a idéia, pela primeira vez, através de uma referência que Baudelaire faz ao autor em um de seus livros: O Poema do Haxixe. Neste livro, em que Baudelaire oferece-nos reflexões agudíssimas sobre os efeitos do vinho e do Haxixe sobre o ser, há uma passagem em que o autor alude algumas das categorias de que Hoffmann fazia uso para melhor medir os ares do espírito. Entusiasmo musical; ironia ácida, insuportável a si mesmo. São algumas delas.

Fiquei fascinado com a idéia e pouco tempo depois já estava pensando em novas categorias, que pudessem medir com exatidão a minha atmosfera interior. Tomei, entretanto, certas ressalvas perante o instrumento, prevendo que seu abuso poderia descambar para algo um tanto taxativo.

As categorias criadas nunca podem ser categorias congeladas e duras. Mas flexíveis, borrachosas, como conceitos que se expandem, se contraem, e que se amoldam. Ou até mesmo categorias descartáveis ou recicláveis.

Para que estes conceitos compartilhem destas qualidades a melhor linguagem seria a linguagem poética, embora isso não seja regra. Categorias mais clássicas de medição devem participar do barômetro: tédio, angústia, raiva, medo. Porém, infelizmente elas não dão conta da especificidade, são muito genéricas. Reparem: “ironia ácida, insuportável a si mesmo” é muito mais pontual, tem o refinamento necessário para descrever o estado de espírito de uma criatura tão delicada quanto o autor.

Talvez tenha chegado a hora de abrir o jogo e falar algumas das categorias que criei. Embosteado. Felicidade colorida ao meio dia. Leveza marota. Sentimento de despedida de tudo. Alegria diabólica. Niilismo rancoroso. Estupidez bovinamente confortável. Sentimento esmagador do ridículo-libertador. Adesão fenomenológica. Fogo no rabo.

Recordo-me de certos estados estranhos que Baudelaire descreve, ou melhor, são sentimentos e não “estados de espírito”. Um deles é o gozo mórbido. Gozo mórbido?!Que porra é essa? Não me lembro de ter tido um, a não ser que tenha tido um, sem o saber.

Isso tudo me faz pensar qual a relação entre a linguagem e os sentimentos. Certo é que as coisas, depois de ganharem o nome, ficam mais reconhecíveis. A coisa, depois de nomeada, começa também a ganhar maior contorno, uma maior nitidez. Isso de forma geral. Veja bem: de forma geral. Que se não é tudo, também não é pouco. Não quero absolutices.


2:29 PM


quarta-feira, outubro 01, 2003
Sandman

Do pouco que li do Sandman posso dizer que gostei muito. Não poderia ser mais sincero que isto. Gostei. Em relação aos objetos recuperados na primeira saga, de fato, Freud está forte. Ou pode estar forte, se é que Gaiman se inspirou em Freud. A idéia de que nos objetos estão muito da energia da personagem central é o que a tradução brasileira se chama catexia. Lacan prefere o termo investimento. Segundo a psicanálise, na nossa vida investimos energia nossa nas pessoas, nas coisas. Bom, é um dos aspectos. Mas o melhor é que se este aspecto não resume a obra. A cena do bar, em que tem uma garçonete escritora, que escreve sobre as vidas dos fregueses é muito boa. Além disso a idéia dos imortais é muito boa. Impossível imaginar um ser humano isento da morte, do desespero, da agressividade, do sonho (inclui aí o devaneio) etc.

Estação das Brumas é muito louco também. A idéia de Lúficer abdicando da diretoria do inferno e leiloando-o é bem massa.


2:42 AM


terça-feira, setembro 30, 2003
Cena

Se eu tivesse tempo, falaria de uma janela e das coisas por trás da janela. Uma tarde chuvosa. Uma menina debaixo do guarda chuva comendo algodão doce. Um arco-iris. E um carro passando devagar. Ah! Tambem falaria do tanto que é bonito quando chove e faz sol ao mesmo tempo.

Nesse momento sinto que falta algo nesse cenário. Não sei. Talvez seja o reflexo da luz em alguma poça. Talvez sejam os prédios por cima dos homens. Talvez seja o pássaro, ou melhor, uma dúvida sobre o pássaro, estaria ele molhado? Talvez falta apenas um pouco mais de cor, uma tonalidade violeta. Isso! Chuvendo ao por do Sol. Talvez para completar mesmo a cena esteja faltando a amada. Do outro lado da janela, ao meu lado. Estou enlaçando-a. E como falar dela sem falar em seu perfume? É. Tava faltando um aroma nessa cena. A cheiro de chuva com o perfume que nos inspira o que há de melhor. É importante também dizer que a janela é uma janela de um apartamento. Tem grades a janela? Não. Se tivesse eu falaria. Pronto. A cena está pronta.

Um último detalhe: ela sorri.

2:23 AM



Um estória que se encontra sem querer

Contra a minha vontade, eis-me uma vez mais aqui, neste receptáculo de lixo nervoso, nesta boca aberta ao mundo que se chama não sei o quê.

Mal começo a escrever e já começo a desistir. Sempre sinto que não tenho nada para escrever. Nunca encontro nada de interessante no vasto tempo entalado na minha alma. O mar de minhas recordações secou, de vez em quando parece que tem uma pocinha azul, mas é só miragem.

Sento-me, permaneço de cócoras, abraço meus joelhos. Tudo é deserto. Pó. A umidade do ar: sete porcento. Se ao menos encontrasse um São Bernardo que me trouxesse conhaque. Se ao menos encontrasse uma freira safada. Se ao menos encontrasse em alguma circunvolução de meu cérebro um problema político, que me servisse de tapete para deitar e rolar. Ou talvez uma piada.

Uns três dias atrás ouvi uma piada, a de uma loira que tinha que dar o cu para um negão e não peidar. Em troca ganharia um tapete. A loira não conseguiu, peidou. A mãe dela, defendendo a honra da família também deu o cu para o negão. Fracassou. Então, a vó da loira, velha mofina, que mal conseguia andar, pegou um busão, foi até a loja de tapete, encontrou o negão e foi tirar satisfação. No fim da tarde a velha, que tinha o cabelo meio branco, meu tingindo de loiro, chega mais manca ainda, com o tapete enrolado nas costas. Sua filha e sua neta se espantam e pensam consigo mesma, orgulhosas de sua linhagem, e do cu poderoso da véia.

A neta, dando pulinhos:

- Eu não acredito. Você conseguiu vovó!

A velha simplesmente respondeu que não havia peidado mas cagado, lambuzando toda a superfície do tapete. E trazia o tapete apenas para lavá-lo.

Se eu não me engano, a velha disse assim:

- Realmente. Peidar, não peidei. Mas, infelizmente caguei naquele tridente do diabo. Perdemos o tapete. A nossa família de loiras foi desonrada. Abdico de todos os meus cargos públicos e privados, cubro-me de cinzas. Minha vida não é mais vida. Passerei o resto de minha vida conzinhando, indo em quermesses. Mas de que me adianta ser a campeã do Bingo, se derrotada por uma benga.

- Mas mãe, o membro era gigante. Não te aborreças, não carregue esse fardo. Ademais, a elasticidade de teu anus já está comprometida. Tenho certeza de que, se fosse na época em que a senhora era novinha, a senhora conseguiria. Isso é normal na idade. As pregas do cu, mamãe, serve para fechá-lo, tá certo, mas também serve para abri-lo. Além do mais, tenho certeza que se a senhora tivesse defecado um pouco antes, isso não teria acontecido.

Enquanto a mãe falava, a neta, com um jeitinho meigo, fazia um sinal com a cabeça, em concordante compreensão às palavras da mãe. Mas a velha parecia não querer saber de desculpas.

- Esse negão vai ver. Amanhã comprarei um consolo, e treinarei incessantemente. Cada vez consolos maiores. Aquele negão vai ver.

Três meses depois, o marido da velha loira começou a perceber algo de errado. Tirou os olhos do jornal, e da sua poltrona avistou sua mulher, de quatro, no tapete da sala, enfiando um gigantesco consolo no boga. Ou melhor, sua netinha é que enfiava. Gotas de suor escorriam da testa da velha e deslizavam pelas rugas, algumas caiam no pé do marido. O marido então disse.

- Você não acha que está passando dos limites.

A velha então retrucou, sôfrega:

- Não. Ah! Não.

A neta da loira, que era uma loirona de dezoito, ajudava a sua vozinha, dando incentivos psicológicos. Frases como: "Vai vovó, você consegue.", "Acredite em si".

No quarto mês a vovó aparece na loja de tapetes. Estende o tapete no chão, já lavado. O negão começa a comê-la. O trato: se não peidar o tapete era dela. O negão começa. Vê que o páreo vai ser duro. Experiente que é, percebe que os intestinos da véia estão murchos, não tem peido, nem merda. O negão afunda mais, na esperança de encontrar uma ilha de peido no fim do tunel. Nada. A velha é só triunfo.

Então a velha, como que juntando forças, olha para os parentes e amigos que foram até a loja para apoiá-la. Na pequena multidão que se forma em torno do tapete, também estão presentes alguns curiosos ou uns dois ou três compradores ociosos que aproveitaram para ver aquela cena bizarra. A velha olha especialmente para seus netinhos, que abanavam cartolinas em que eles mesmo escreveram frases de apóio. Filhos, genros, netos, todos torciam pela véia. Todos estão lá. Só o marido não compareceu, alegando dor de cabeça. Uns diziam que era ciúme, mas não importa. Todos vibravam. O negão utilizou todo o repertório de técnicas que conhecia. Metia fazendo certos movimentos rotatórios com o tronco, de modo ao pau girar no intestino, partindo da suposição de que seu pau estivesse impedindo a saída do peido. Mas nada, nem um arzinho. A velha resistia. Depois de cinco minutos a velha, pressentindo a vitória, em vez de ficar apoiada com os dois braços no chão, teve a ousadia de ficar apoiada com um único braço, levantando ao ar o outro braço com os punhos fechados: o sinal da vitória, do triunfo, e da glória da família. Nesse momento os familiares entraram em êxtase, pulavam e abraçavam uns aos outros.

A imprensa já havia chegado. Um dia depois, a sairia a notícia em rede nacional. Fotógrafos de todos os jornais tiravam fotos de todos os ângulos. Saiu na capa de um dos jornais mais importante do Brasil aquela cena que eu já descrevi. A velha de quatro, um braço da frente apoiando no chão, o outro levantado como no sinal da vitória, um meio sorriso de orgulho, triunfo e supremacia da raça. O negão, atrás, como uma cara de desespero, derrotado.

E finalmente o negão tirou o membro. A vitória era da velha. Não tinha o que se discutir. O tapete era dela. Ficaria no meio da sala de visitas, servindo como troféu. E mais que o tapete, a honra da família estava salva.

Foi um momento deslumbrante, os que viram falam que nunca viram nada igual. Uma lição de perseverança, de caráter. Todos afirmara que depois disso aprenderam a valorizar a honra, coisa que dinheiro nenhum compra. Aprenderam também que para se conseguir o que se quer é necessário, muitas vezes, superar a dor. Era uma heroína, sem dúvida. Ouvi dizer que o padre da paróquia que a velha freqüentava havia reprovado a atitude. O pessoal dizia era normal que o padre tivesse essa opinião. Bom, mas a verdade é que todos no bairro, todos que presenciaram a cena, eram unânimes quanto ao grande valor da velha.

1:32 AM


segunda-feira, setembro 22, 2003
O Bravo.

Ficarei na minha luta vã para não escrever nada. Tudo o que escrevo é nada. E nada é o gosto do milho, que, por ser amarelo, não é totalmente aquilo que se chama focinho de lontra. Entendeu, não. Não, não, não, NÃO. Nu em Nova Yorque é um filme que transborda sabedoria. Todos devem assistir Nu em nova York. É lá que ficarão sabendo o real significado de todas as coisas.


A beleza

Encontrei, ontem a noite, do outro lado da esquina, a beleza. Encontrei-a entre o fora e o dentro. Entre o cosmo e o Eu. Mas era tão bonita. Tão bonita. Linda, Linda. Fiquei encantado e...
...
...
... repousei meu coração. Um fogo manso e delicioso fazia meu coração ficar quietinho. Sentia-me bem, sentia-me nobre, vendo a beleza olhar de modo tão sutil para mim. Quando já era madrugada, abaixei um pouco mais e comecei a lamber o chão. Vocês não vão acreditar, mas o chão era de chocolate. Mas de repente o chão virou concreto e depois virou abstrato e depois virou conceito. Então, deixa eu confessar de uma vez por todas, senti orgulho, pois lambia um conceito. Minha língua é muito grande. Uma vez enfiei a língua dentro de um cano e abracei o mundo com minha língua. Outra vez, quando estava no quintal de casa, deitei no chão e tirei a língua para fora, minha língua então começou a subir, subir, subir. Cada vez mais minha língua crescia, parecia uma antena, mas fui fazendo força e ela foi subindo mais ainda, ultrapassou a estratosfera, raspou na lua, entrou num buraco negro. Senti orgasmo. Me senti, por dois segundos realmente me senti, alí, estirado no chão de meu quintal, me senti o homem-deus. Mas foi só por dois, dois segundos apenas. Aí, recolhi a língua para dentro da boca e fui conversar normalmente com todos aqueles sujeitos honesto que trabalhavam em frente da construção de minha casa.

- Bom dia pedreiros, bom dia mestre de obras, bom dia servente de pedreiro.

- Bom dia, amigo. O que você quer de nós?

- Quero conhecimento.

- Cê é tonto. Não sabemos nada além de construir casas.

- Falo sobre as coisas da vida.

- Ah! Entendo, coisas como comer bem e ter uma vida boa.

- Sim!

- Isso não falamos, ninguém pode contar para ninguém.

- Como assim?

- Nunca ouviu, está na Bíblia e em todos os livros e em todos os lugares. Se você fala para alguém qual é a melhor maneira de viver, a maneira de viver deixa automaticamente de ser a melhor. Por isso. Aqueles que sabem a melhor maneira de viver nunca contam para ninguém. Pois se contassem não mais saberiam.

- É muito triste saber isso.

- Julgue como quiser, mas a verdade é essa.

- Tudo bem, meus amigos pedreiros. Posso trabalhar um pouco com vocês?

- Você está louco, ninguém quer trabalhar de graça. Você só pode estar louco. O que você quer com isso. O QUE VOCÊ QUER?

- Eu quero apenas trabalhar um pouco com vocês.

- Tudo bem, o problema é seu. Pegue para mim aqueles tijolos. E depois misture a cal com o cimento.

Suei em bicas, estava um dia muito quente. Os tijolos eram pesados e por vezes o vento soprava a cal em minha cara, obrigando-me a respirar aquele ar esbranquiçado. Sentia que ia morrer asfixiado. Várias vezes tossia. Quando tossia, os pedreiros davam risada, rachavam o bico. Então eu também ria um riso meio amarelo. Um tempo depois estava exausto, meus músculos tremiam, sentia a força da gravidade como Newton nenhum jamais sentiu.

Os períodos em que me sinto melhor são os períodos em que fico orgulhoso. Não tenho orgulho por exemplo das minhas roupas, não tenho orgulho de minhas posses, não tenho orgulho de muita coisa, tenho orgulho daquilo que eu penso. Não tenho tanto, é verdade. Às vezes queria me tornar um vegetal, digo, um vegetal bonito.

12:15 AM


segunda-feira, setembro 15, 2003
A ordem

Recebi recentemente o seguinte mensagem, ou notícia.
Autoria: Gustavo.




Glaera de Pnepálois,

De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, não ipomtra em
qaul odrem as lrteas de uma plravaa etãso, a úncia csioa iprotmatne é
que a piremria e útmlia lrteas etejasm no lgaur crteo. O rseto pdoe ser
uma ttaol bçguana quevcoê pdoe anida ler sem pobrlmea. Itso é poqrue
nós
não lmeos cdaa lrtea isladoa, mas a plravaa cmoo um tdoo.

eu gsotei de ecserver dseta mnaeria, não preicsmaos mais coerdnar os
ddos ao ditigar...

Abaçros,



10:26 PM


terça-feira, setembro 09, 2003
Ele

Ele acordou, escovou os dentes, penteou o cabelo. Carro. Café. Pão de queijo. Conversa. Leitura. Conversa. Come. Roça a comida com lí­ngua, espreme-a contra o céu da boca. Comida. Alface. Saúde? Nem tanto. Cerveja? Não é hora. Pra tudo tem hora. Interjeição. Piada. Riso. Coração. Emoção. Fisiologia. Ácido. É o estômago. Esporte. Saúde? Ah! Sim, saúde. Motivo. Deixa para depois. Depois chega. Esqueceu. Está ocupado em fazer outra coisa.

Dilatou o instante. Fez alguns objetos falarem. Fez papel sussurar e dormiu.

1:53 AM


quinta-feira, setembro 04, 2003
Apresentação

Sou o Pulmão Cabeludo, um sujeito que vê o mundo para além das aparências. E como não vejo nada por trás das aparências, vivo como um cego errante. Acredito, portanto, que a verdade não existe. Tudo é questão de crença. Algumas melhores, outras piores. Algumas crenças são mais frutíferas e, portanto, produzem mais frutos, constroem foguetes, outras confortam a alma, e outras fazem esquecer de tudo.

Tenho uma única missão: ser feliz. Uma parte de mim diz que sou composto de merda. Outra, que sou um Deus. Uma terceira, mais ponderada, diz que sou um rapaz latino-americano.

Nunca soube quem eu sou. E não quero nem saber. Já disse. Quero ser feliz como uma criança. Mas uma criança feliz.

Dizem que a substância é uma espécie de uma bolsa, portadora de qualidades, atuais e potenciais. Uma loucura!

Um outro pulmão certa vez me afirmou que existem dois mundos. O mundo da realidade e o mundo pessoal. No mundo pessoal imaginário, tudo é possível. Se não me engano Buda Cósmico disse algo assim. Pois todas as situações reais podem ser imaginadas, mas situações irreais também podem ser imaginadas. Logo, o mundo real está contido no mundo da imaginação (a maior prova disso, segundo Brasil Schinik são os números imaginários, que não existem na realidade, só na imaginação). Decorre daí que o mundo dos sentidos é produto da imaginação mais ou menos ordenada de Deus. Caso contrário não me chamo Pulmão Cabeludo.

Certa vez cheguei a conclusão que para ser feliz é necessário amar. Daí comecei a me empenhar em amar. Depois cheguei à conclusão que é preciso também algum dinheiro. A partir daí comecei a ir atrás de dinheiro. Depois disso, é necessário que o mundo pessoal seja elegante. A partir daí comecei a embelezar o mundo interior. Isso é tudo. O resto é conseqüência lógica ou ilógica destes postulados. Ah, também é importante se assustar com o mundo. Comecei então a me assustar com o mundo.

2:05 AM



Republicações

Com a mudança da blogspot, todos os meus arquivos se perderam. Resolvi então tomar uma atitude frente a isso. Abri a gaveta e tirei de dentro uma chupeta. Chupei durante três horas mais ou menos. Mas nada adiantou. Então taquei a chupeta no fogo e resolvi republicar alguns deles. Aos poucos irei consertando-os, retocando-os, e republicanos.

1:59 AM



Jacu

A grande maioria das pessoas com que convivo são jacu. Desculpem-me se não coloco o termo no seu devido plural. É que julgo impossível dizer “jacus”. Não faz sentido, soa latim: “jacus mundi est”, acaba dando um ar de coisa chique, desviando de seu sentido original.

O que é ser jacu? Penso ser impossível precisar seu significado. Jacu é um daqueles termos irredutíveis, que não permitem a troca por um sinônimo sem que o termo sofra sérios prejuízos. Assim, enfatizo, não há condição de traduzi-lo para qualquer outro idioma. A única forma de um idioma entender o que é jacu seria apropriando-se do termo e incluindo-o em seu vocabulário. Se é que as palavras são mesmo vírus, basta infectar a outra língua para que esta seja contaminada. “Are you jacu?”. Embora seja bem provável que o francês ofereça menos resistência, dada sua sonoridade: “Je suis beaucoup jacu”.

Não há outro meio, só através da convivência empírica com essa palavra o seu conteúdo pode ser, digamos, intuído. Na verdade, nem é de todo correto enunciar a sentença acima citada. Pois no caso de jacu, significante e significado estão terminantemente unidos. Erro grosseiro julgar que jacu seja semelhante a uma bolsa onde se guarda algum conceito, ou o conteúdo da jacuzisse. Jacu é a soma do conteúdo com o continente. Isso é jacu.
Bom, como ia dizendo, boa parte de meus amigos são jacu. Espero que depois de toda essa explicação sofisticada, eles não se sintam ofendidos, posto que jacu é algo muito complexo, dada a sua simplicidade. Espero também que não pensem que um dos componentes deste predicado a que lhes atribuo tenha a ver com caipira, ignorante, xucro, muito menos medíocre. Nada mais além de ser jacu.

É importante salientar, antes que me esqueça, de que não consigo pensar em um antônimo de jacu. Talvez caju. Mas aí já é criancice, já passamos da idade, essas coisas. O fato de uma alguém ou algo ser jacu não exclui, em hipótese alguma, a possibilidade de receber qualquer outro adjetivo, seja lá qual for. Podemos dizer, e isso é bem verdade, que alguns outros predicados sentem por jacu uma espécie de força de repulsão, não impedindo, contudo, de coexistirem. Nenhum problema, portanto, em dizer algo como “Ele é jacu, triste e elegante”. Concluindo: há um campo de força com características particulares em torno jacu. Inferir que um homem jacu não possa ser triste é o mais puro preconceito.
Então que assim seja. Termino com abraço apertado para todos os meus amigos jacu.

1:55 AM



Freud, amigo da garotada

Freud, neurologista frustrado, erigiu toda a psicanálise a partir da psicopatologia. Para entender a mente de um sujeito normal, usou como matéria prima as suas investigações o homem doente. Após alguns anos de estudo e evolução, supôs que tudo aquilo que uma mente lunática possui, nós, terráquios, também possuímos. A diferença entre a nós e os psicóticos, histéricos, etc não seria, portanto de espécie, mas sim de grau. O fenômeno da loucura se manifesta em degrade.

Lógico que tal procedimento metodológico é visivelmente reducionista. Pois apreende a realidade humana sob a perspectiva da doença, de forma parcial, imprimindo relevo à certas porções da subjetividade enquanto outras mais altas e quem sabe mais esquisitas são preteridas ou, na melhor das hipóteses, jogadas no saco da sublimação, como se nomear o problema fosse resolvê-lo.

Sublimação se refere a toda aquele energia sexual que não é descarregada em seu objeto original, e assim segue outro caminho, mais simbólico e mais sublime. É uma compensação vertical. Exemplo grosseiro: o consciente chupa um sorvete, mas seu inconsciente quer mesmo é chupar rola. Mais grosseiro ainda: O poeta escreve sobre o abismo negro para isentar-se de práticas sexuais bastante sujas. Assim, sublimação entra no conjunto destes conceitos tão amplos a ponto de se tornarem tão vagos quanto inúteis. Um conceito que tudo explica, nada explica. Para o nosso judeu, a arte não passa de sublimação.

Só isso?

Arte é muito mais que isso, seus psicólogos estreitos!

1:47 AM



American Pie

Estou de volta ao tablado dos blogs. E já estou par da nova onda. Do novo estilo que se esboça em páginas e páginas da mais pura alegria. Gabolice? Não, tô fora.


Antonio Damasio, comparsa de Oliver Sacks, analisa em seu livro "O Erro de Descartes" a relação entre emoção, razão, corpo, cérebro. Aos poucos ele vai descobrindo, através dos novos avanços sobre o conhecimento do cérebro, coisas o que os chineses já concluiram cinco mil anos atrás, e que Machado já martelava nos fins do séc. XIX. Os sentimentos se originam a partir da leitura que o cérebro faz dos estados do corpo. O cérebro recebe informações do corpo através substâncias químicas no sangue, e das vias neurais relativas a porção visceral e músculo esquelética.

A teoria de Damasio seria, portanto, uma complexificação da concepção de Willian James, cujas intuições psicológicas só teriam par, segundo o autor, em Freud e Sheakeaspere. Em suma, todo sentimento está ligado ao corpo. A depressão, por exemplo, pode afetar o sistema imunológico da pele, formando feridas purulentas que podem levar ao câncer. E a paixão está associada à elevação, no sangue, da quantidade de uma substância de nome, se não me engano, oxitina. A produção de oxitina aumenta estrondosamente quando você passa o dia inteiro embiroscado com o seu parceiro, cheio das fuinhas e dos futruques.

Mas deve-se fazer justiça, a medicina chinesa, embora menos compacta que a teoria e Damásio, vai muito mais longe do que neurofilo português. A medicina chinesa relaciona com facilidade aspectos tão dispares da realidade, que chegam a causar vertigem: como o horário do dia, o órgão do corpo, o sentimento, o alimento e o clima, e talvez até a cor do ônibus. Isso, na medida em que enquadra todos esses elementos em categorias metafísicas comuns, originárias da díade Yin –Yang. Assemelham-se muito as ditas cosmogonias intuitivas do ocidente, com a diferença de serem cinco em vez de quatro. Metal, Ferro, Madeira, Água e Fogo.

A vantagem é que são categorias amplas suficientes para abarcar qualquer aspecto da existência, permitindo uma análise intricada da dinâmica do relacionamento de todas as coisas com todas as coisas, para além de uma causalidade linear, como o é a psicossomática: a depressão causando estragos no corpo. Simplista demais para um Chinês, que vê no bom funcionamento do estômago o outro lado da paciência e no bom funcionamento do fígado uma das faces da criatividade.

1:13 AM


segunda-feira, setembro 01, 2003
Resposta

Pergunta: "Você se considera superior a mim?"
Resposta: "Se eu pensasse em você, talvez pudesse responder a sua pergunta".

Pergunta:" Qual o valor do valor?"
Resposta: "Pergunta pro Nietzsche."

2:53 AM



A intimidade

A intimidade é sempre gostosa.

2:41 AM



Não é poesia

A poesia se descarna em minha frente.
Pois vazo ferro e sangro bois de rios.
Li recentemente sobre a inveja.
Concluí que não é boa.

Concluí em mim mesmo,
Na solidão de meu siêncio,
Enquanto sub-ouvia uma música.

Lá fora pessoas faziam coisas.
Muitas coisas elas faziam.
Sei que um olho espiava o vizinho,
E o outro contava o dinheiro.
E um teceiro, se não me engano, buscava Deus,
Então travou guerra em meu pensamento.

Estava na cama deitado, descarnado.
Queria algo que não tinha
E não podia ter.
Pois esse algo que queria era não ter
Nenhum problema a resolver,
Nenhuma necessidade,
Que cutuque minhas costas
E me faça andar condoído.
Com dor nas costelas.

E foi por aí­ que encontrei a miragem de seus lindos olhos,
Olhos que não se vêem,
Mas que são tão bemvistos por mim,
Onde encontrei o simples reflexo de uma sublime beleza que encontro sem querer.
O desejo deve ser desejado.

Foi assim, meus amigos.
Foi assim que me ergui.
Foi assim que meu pulmão começou a respirar com gosto.
E o estômago roncar de felicidade.
Não sei como, nem bem sei se mereci, mas Deus me deu um amor.
Devo ter merecido. E agora sonho outra vez,
E não mais me range os dentes ao calar a noite,
Quando apenas cães e grilos alvoroçam na esquina.

Agora vejo outra vez, sentado na pedra, no topo da montanha talvez,
Um homem com a mão no queixo,
Que olha para o chão e não teme as formigas,
Que não vê na fumaça da maconha o fantasma da culpa.
Que olha para o horizonte e não teme os abismos,
Da escuridão, da incomunicabilidade,
Da inveja, da desgraça
E do destino que farreia e anovela minha vida.

Outra vez sinto a tristeza, vejo chorar o dia,
A lua minguante sorrindo,
O sorriso do gato de Alice,
Só que amarelo.

As mãos deslizam no corpo e faz o coraçao quente.
Mas ao longe,
Depois das areias do deserto
Vejo um monte de fezes que trespassa a atmosfera.
E ri, com ironia triunfante, do ridí­culo que há por trás de todas as coisas.
Da besta animalidade, como bem disse meu demônio num dia de fogo.
Mas se pego o demônio no pulo e descubro suas entrelinhas,
Ah! Que bom!

Olho para trás e avisto Empédocles,
Cubro-me de susto.
Uma ponta de vergonha emerge dos dias passados
De debruçar tanto sobre mim mesmo,
E passar horas vadias lambando o próprio rabo.
E de suspeitar que no fundo de minha linguagem haja um certo segredo que me sustenta.

Bom mesmo é contemplar o cosmo.
Intuir nas formas naturais sua composição.
Quatro elementos,
Simples,
Irredutí­veis.
Tudo,
Cadeiras, orquí­deas, guerras, havaianas
Por força do amor e ódio,
Se forma,
Desforma,
Transforma.
Em carinho, em pelúcia, em bombril, em estrelas, em carne.

Quatro elementos. Duas forças.
Eis a aqui a confiança no divino aperto de mão entre as palavras e as coisas por trás das coisas,
As coisas lá fora da linguagem.

Fora da linguagem existe o prático.
O fazer de um macaco catando frutas.
E saindo de pica dura atrás da fêmea,
E outros macacos peludos que cobiçam o poder.


Mas se lí­ngua desce,
desliza pelo braço,
Chega na mão,
Tenho instrumento.
Em língua imperativa,
sugestiva.
Que serve para roçar, sibilar, blablablar, transformar estado,
Alguma valia se encontra,
Pois é sabido no Rio Sucuriu
Que existem coisas que coabitam nossa temporalidade.

No seio da indiferenciação sujeito-objeto
Meti as caras e sonhei,
Com o tempo pré-socrático,
Quando a poesia enlaçava a ciência,
E tudo era mais confuso e mais bonito.

Shakeaspeare também olhava a natureza,
E encontrava nos rios e nas carpas metóforas certeiras.

1:36 AM


domingo, agosto 24, 2003
Eis tudo

Quando ele abriu a porta, com o copo de scotch na mão, tilintando as pedras de gelo, viu um enorme ganso em cima do colchão. O quarto estava mal iluminado. A pintura da parede se desgastava. O ar estava abafado, cheirava a mofo. O ganso olhava ameaçadoramente para ele e espumava. Então ele aproximou-se do ganso, com as pernas flexionadas em caso de briga. O gelo chocava-se dentro do copo. O ar estava abafado. O céu, por cima do telhado, estava fosco. Ele e o ganso. O ganso e ele.

Sua cara de barba mal feita. Seus lábios ressecados. A pururuca se diluindo no estômago. O ganso eriçou os pelos. E ele pulou em cima do ganso. Mas o ganso virou espelho. E ele viu sua cara no espelho, confuso. Tomou fôlego. Pensou. Sentou ao canto da cama. Acendeu um cigarro. Olhou para a parede. Seu coração batia forte. Um suor frio vazava de seu suvaco.

De repente, pegou o espelho e olhou mais uma vez. O espelho era curvo. Examinou melhor. Percebeu que o espelho era de pano. Era um pano-espelho. Uma roupa. E um espelho. Digamos: uma roupa que refletia exatamente como um espelho. Desconhecia o material, nunca vira nada parecido antes. O coração já batia mais de vagar. Tomou uma grande golada de scotch. O gelo batia. Vestiu a roupa-espelho. E foi se olhar no espelho do banheiro. Eis tudo. Nada posso escrever além disso. Eis tudo.

2:12 AM


terça-feira, agosto 12, 2003
2003: o ano dos cortes e das opiniões

Estamos em 2003, certo? Certo. Deveria ter um telefone em casa, certo? Certo. Mas o fato é que eu não tenho. Estou isolado do mundo já faz mas de semana, e ainda vou continuar assim por mais duas.

Então fica foda emitir opiniões ao mundo, pelo menos através da internet. Por isso, recentemente resolvi mudar o meu veículo de opinião. Faço discursos na porta de casa, e distribuo panfletos na rua aos passantes. Nestes panfletos as pessoas podem encontrar minhas opiniões sobre o mundo bem como informações sobre meu estado de espírito. Vou começar a mandar cartas com posts escritos a mão para os meus melhores amigos e leitores.

Não vale a pena esquecer a definição de egoísmo, dada por Ambrose Bierce:

"Egoista: uma pessoa que pensa mais em si mesma do que em mim."


4:01 PM


domingo, julho 20, 2003
Cenas que marcam 1

Em Amacord tem aquela mulher de corpo farto que trabalhava no balcão de uma venda. Uma daquelas personagens típicas do diretor. Tinha seios imensos, muito grandes mesmo.

A cena em que o rapaz, que sempre sonhara com as bojudas, finalmente consegue-as e, quase sufocado com tanto volume, não sabendo o que fazer direito com toda aquela fartura, no auge do desespero, começa, ao invés de chupar, soprar no bico, fazendo barulhos de boca soprada na pele, é uma das minhas favoritas, uma das que me marcou, fora a do trombofone comunista na torre da igreja.

10:16 PM


sábado, julho 19, 2003
Armas

Óbvio que armar a população, não resolve o problema - caso seja ruim de pontaria. Iria apenas piorar. Azeitona perdida na testa de nego não iria faltar. Gente fazendo graça em cabaré. Discussão de trânsito nadando no sangue.

Portanto, que fique claro: para uma pessoa ter arma, assim como no caso das drogas, é necessário consciência e mira. Cheirador que erra o tiro, ou espirra na farofa, é motivo de riso. Perde toda moral.

É por isso que apoio aquele antigo projeto, a construção de "Escola Estadual Charles Bronson". Sem ela, torna-se inviável, proibindo, ou favorando.(desculpe pelo neo-logismo, é que estou lendo Rosuardo Rosa)

Segundo: a lei, no Brasil, serve apenas a título de ameaça. Se fosse cumprida a risca, noventa por cento ou mais da população veria o sol quadrado, incluindo na lista todos os meus amigos, e até mesmo, quem sabe, minha avó.

10:17 PM


terça-feira, julho 15, 2003

(autor:Dante Gabriel Rosseti)

12:53 AM



SP-330

Em certa altura da SP-330, um Astra vinho ultrapassava um caminhão. Dentro do carro, um sujeito de uns vinte e cinco anos. Óculos escuros, cotovelo na janela, cabelo esvoançando contra o vento, cigarro na metade, e um belo por do Sol morrendo ao longe, em algum canavial. Destino: Piquapá, A Princesinha da Noroeste.

12:01 AM


sexta-feira, julho 11, 2003
Ministro, vá tomar no cu.
1:12 AM


quinta-feira, julho 10, 2003
nhuc nhac
2:25 AM



Mulher e música

Certo é que o doce olhar que uma mulher deita sobre nós enternece o espírito e nos dá aquele átimo de força tão necessário para continuarmos vivo. Há simplicidade e ao mesmo tempo um poderoso mistério nessa luz. Para se viver só, e não ser tomado de amargo rancor contra tudo que floresce, só mesmo escutando Mozart ou Cool Jazz. No primeiro, neutralizamos nossa sexualidade com a melódica alegria de uma criança no trepa-trepa do parque ou através da tristeza de se ver, no chão, um passarinho doente que já não consegue voar. No segundo, a “massa de silêncio” dá linguagem aos pequenos objetos decorativos de nosso quarto, que contemplamos com paz budista.

2:23 AM



Oh! Um fenômeno!

Era realmente um sujeito interessante aquele cara de um metro e setenta de altura. Nunca conheci alguém como ele. Por favor, dispam-se de todo preconceito romântico: as pessoas se repetem. Já conheci nesta longa trajetória por este mundão afora muitas pessoas iguais, que se diferenciavam apenas quanto ao modo de sofrer. Mas ele não. Um homem único. Minha compreensão falha quando penso nesta singular figura, que um dia tive o prazer de conhecer. Gostaria de mostrá-lo em carne e osso algum dia desses para vocês. Como isso não me é possível, ao menos por enquanto, contento-me em descrevê-lo, mas em sendo ele um indivíduo que transcende a linguagem, resta-me não mais que tatear este fenômeno, como nestes desenhos animados em que se tacam tinta para reconhecer o homem invisível. Sim, um fenômeno, nada mais que um fenômeno. E digo mais.

Ou será que me calo, encerro o texto neste ponto, desligo o computador e vou embora. Temo sim dar seqüência à matéria de que aqui trato. Corro sério risco de que as palavras gravadas nesta tela caiam no mar raso das coisas sem sentido. Feitas estas ressalvas, prossigo em meu relato de meu prezado amigo. Devo insistir em certo termo por mim escolhido para denominá-lo, termo este que pode, em um primeiro momento, ser visto como confuso, vago, um mero rótulo desnecessário, mas, dado tempo ao tempo, o leitor verá que não há como escapar do predicado em questão. Após anos, anos e anos de reflexão suada, tenho como certeiro que melhor o caracteriza é: um fenomenólogo, e dos bons. Não sei se fenomenólogo de natureza ou de formação, mas garanto que era dotado de uma personalidade refinada e brilhante. Oras, não poderia ser diferente.

Olhar o mundo através dos óculos da fenomenologia é uma dádiva que o destino reservou a uma pequena fatia de privilegiados. No meu caso, só em raros momentos a fenomenologia desce sobre meu corpo. No caso dele, era o tempo todo. Acordava e já começava a ver fenômenos, e permanecia assim até o fim do dia, sem sinal de parar nem para tomar fôlego. Aliás, parecia que lhe cansava ser assim, impossível ler em sua vasta testa o menor sinal de esforço. Certa vez, enquanto dormia, uma bomba estourou em frente na porta de sua casa. Acordou assustado e pensou. “Que interessante, um fenômeno!” e voltou logo a dormir, enquanto isso sua mulher cozinhava em seu coração um rancor ardido e tenso “coisa de algum vadio desgraçado”.

Realmente, era um homem notável, de bem com a vida, cheio de disposição, leve, e no mais das coisas, com uma boa abertura ao mundo. Dominava como ninguém a difícil arte de se projetar no mundo, especialmente em jardins e paisagens vistas através da janela, de pequenas pontes de rio, ou igrejas antigas. Desvelava tudo o que via pela frente: músicas, engenharias, ferrolhos, com a facilidade de uma criança rabiscando um papel.

Diga-se de passagem que nunca intuiu nada, ou melhor, teve a última com doze anos de idade se não me engano. Depois disso, nunca mais. Percebia os fenômenos simplesmente. Devo salientar que descabe qualquer questionamento quanto à exterioridade ou à interioridade dos fenômenos por ele percebidos.

Nas deliciosas conversas que travamos pelos bares da vida, ele disse-me coisas que impressionaram profundamente meu intelecto, arremessando-me num mundo desconhecido e novo, paradoxalmente, o mesmo que sempre vivi e em que agora vivo. Era como se, num passe de mágica, eu começasse a entender as coisas a partir de um ângulo completamente insuposto, totalmente alheio a tudo o que antes conhecia, um ângulo em que tudo se desvelava incessantemente, compondo um quadro de sublime beleza. Parecia-me como se este meu amigo fosse dotado de algo de sagrado, de uma sintonia fina com a verdade. Com efeito, suas palavras passavam incólumes por toda a minha barreira crítica, por todo o meu preconceito, por toda a minha repulsa a toda essa intelectualidade fundamentada tão somente no frágil orgulho erudição vazia, e nos jargões filosóficos forjados para dar um verniz de novidade a velhas idéias. Até mesmo os mais corrosivos dos argumentos, aqueles de forte teor relativista, se envergonhavam diante da clareza de seu pensamento, e corriam se esconder no poço fundo de meu inconsciente. Nesses momentos a consciência era clareira limpa e fértil. E que prazer em escutá-lo! Algo como se estivesse embaixo de uma cachoeira de razão, luz e clareza. Ou como se bebesse diretamente da fonte que fecunda o universo. Tratava de coisas complexas com simplicidade e elegância, sem o entusiasmo doentio e passional dos críticos cujos corações são apretejados pelo excesso de bile no organismo.

Referiu-se, certa vez, enquanto tomávamos chá, na superstição muito comum de que existe um fora e um dentro. Argumentou que tal modo unilateral de pensamento pertencia a todos aqueles que acreditavam na esdrúxula fantasia de uma membrana semi-permeável que filtra o que vem de fora: o material coado seria então reorganizado por uma espécie núcleo racional que lhe imprimira sentido, para finalmente ser reconhecido pelo aparelho do entendimento.

Garanto para vocês que ele nunca imprimiu sentido a nada. Todos os sentidos por ele percebido eram intrínsecos aos fenômenos. Da mesma forma nunca soube a essência de nada, o que muito me causou espanto. Nem é necessário dizer que também nunca viu aparências. Mas o que mais me chamava à atenção era a sua boa adaptação ao mundo. Realmente impressionante.

Tinha vários gostos que valem a pena mencioná-los. Na escrita, por exemplo, preferia o uso da lógica aristotélica, uma questão de cortesia e modéstia. Em música, tinha um especial apreço por Free Jazz, pois que tal estilo, segundo ele, poria a música em estado de emergência, que é justamente onde Ser se manifesta: o ponto em que o futuro e o presente se tocam e entrelaçam. Ou pelo menos foi assim consegui compreender, pois futuro, passado, e presente eram, para ele, categorias que não exprimiam o sentido da temporalidade do ser, do tempo tal como percebido. O futuro, por vincular-se à percepção hipóteses possíveis, estaria de algum modo associado à imaginação, à poética. O passado estaria irremediavelmente ligado à memória, o que seria simples de entender, se não fosse o fato da memória, para ele, estar intrinsecamente misturada ao presente. Assim, o passado, do ponto de vista existencial, da primeira pessoa mesmo, seria, se quiséssemos acertar o alvo, não outra coisa senão o vigor-de-ter-sido.

Talvez não esteja sendo compreendido por algum leitor apressado. Se este é o caso, espero remediar agora toda e qualquer confusão. Estou ciente que o que vou fazer agora, a fim de clarificar esta figura, é uma manobra arriscada, pois o leitor agudo poderá encontrar nos trechos que se seguem um ar de fofoca, o que, com certeza, diminuiria o grau de estima pela pessoa do escritor, colocando-o, com razão, sob o signo da impostura. Porém, este não é o caso - deixemos a fofoca para as damas - e vamos aos fatos. Nada mais que fatos.

Alguém que vê o universo através dos óculos da fenomenologia tem um modo de vida específico que não pode ser negado. Ora, controlando adequadamente as variáveis do ambiente, podemos prever o comportamento do fenomenólogo, embora não possamos dizer o mesmo, infelizmente, em relação ao seu pensamento. Solte, por exemplo, um fenomenólogo em um museu bem aparelhado, espere um pouco, e observe sua reação. Alguns minutos depois ele já estará fitando as obras tranqüilamente, desvelando-lhes os sentidos. Um mês afastado de museus, jardins, livros e paisagens pitorescas, e o teremos sem apetite, abatido e sem umidade no olhar, apenas desvelando, cheio de angústia no peito, os azulejos de sua casa. Até hoje não sei de nenhum que permaneceu vivo por mais dois meses em estado de tão cruel privação. Já em Museus, quanta alegria! Seus olhos brilham, enche com gosto os pulmões de ar, sai de quadro em quadro desvelando as obras ao infinito, desdobrando o fenômeno até fazer saltar o sentido de seu interior.

Tem gente que pensa que todo fenomenólogo é filósofo. Ledo engano. Embora a grande maioria seja, esse é um abominável preconceito que deve ser de uma vez por todas abolido. Conheci dois que não trabalhavam como filósofos. Um deles era este meu amigo, o outro, um mestre de obras de Taguatinga, cidade periférica do Destrito Federal. Alcoólatra, era conhecido por todos como Goiano - fenomenólogo de primeiríssima, diga-se de passagem. Apesar da ocupação não convencional, denunciava sua inclinação através de certos hábitos típicos da classe, como pousar para fotos com um cigarrinho dependurado ao canto da boca, embora fosse Belmont.
Bom, deixemos as exceções à parte e peguemos características universais no que se refere à questão de gosto intelectual. Adoram física quântica, mas preferem antes discuti-la com poetas a discuti-la com físicos, pois estes últimos optam por uma visão de vida em terceira pessoa, o que, como todo mundo sabe é algo horroroso, vil, em suma, um pecado mortal. Pelo que se sabe encaram a quântica com a mesma naturalidade com que encaram o barulho de um grilo, ou a espumas que se formam quando as ondas quebram na praia. Mas o melhor de tudo é que, ao contrário de alguns mecanicistas, encaram este ramo da física sem fazer birra. Um deles me disse, certa vez, que esta teoria é um fenômeno que, através de uma teia de sentidos, desencadeia outros sentidos. Aliás, eu erro, “desencadeia” é demasiadamente mecanicista. Melhor seria: a quântica nada mais é um ponto de tensão numa rede de sentidos que propicia a manifestação de outros fenômenos.

Lembro que o fato deste meu amigo não ter nem conceitos nem definições dificultava um pouco nossa comunicação. Se por um acaso mencionei anteriormente que escutá-lo era um deleite, devo corrigir-me, pois, embora o tenha sido após um tempo de convívio, nem sempre este foi o caso. Em nossos primeiros encontros, eu queimava as pestanas para entender o que dizia. Sentindo em mim uma certa confusão, pedi-lhe, algumas vezes, que fosse mais claro em suas exposições, ao que ele sempre me respondia para relaxar, pois não é de primeira que se entende, por exemplo, a mímica sexual de um Louva-Deus. É aos poucos que se vai entrando no campo de sentido do inseto. E assim com tudo o que há no mundo. O segredo é mergulhar no conceito: “campo de sentido”. O sentido de uma frase não é a soma dos sentidos isolados de cada termo, mas se forma com a incorporação do estilo do autor, momento em que culmina com o todo dando sentido às partes e estas enriquecendo o sentido do todo, numa maravilhosa dialética que desisto de uma vez por todas de esclarecer.

Algumas vezes, lembro-me mesmo dele ter me acusado de mecanicista caduco, portador de uma lógica que não ultrapassava a idade média - o máximo que eu poderia chegar, pensando do modo como pensava, era em Kant. Confesso que esta acusação eram marteladas em meu pobre coração de estudante. E se hoje, se entendo um pouco de fenomenologia é graças a ele, que se não é tão singular assim, como pintei de início, ao menos é um cara legal, capaz de amar e ser amado. E quer mais que isso?



2:21 AM


segunda-feira, julho 07, 2003
Tutu de feijão

Estou louco por um tutu de feijão bem feito, com torresmo em cima, no forno à lenha, na panela de pedra sabão. Quero me fartar de comer. E depois olhar as fofas montanhas de nosso estado tão deliciosamente mineiro.

6:18 AM



Faxina

Ué! O que está acontecendo comigo. Tenho que tomar tento. Vou alegrar este blog, pois de agora em diante encherei meu coração da mais doce esperença, do orvalho mais cândido da vida, me nutrirei somente dos primeiros raios da aurora. Nada melhor para isso do que uma obra de arte sobre um período pleno do transbordar da vida. Puberdade. E esse blog está precisando urgentemente de uma boa faxina, coitado. Já está cheirando a mofo, a naftalina. Está sem vigor, abatido. Nada como um belo dum banho para revigorá-lo e de um toque feminino para melhorá-lo. Então vai. Segue a obra.

6:10 AM


domingo, julho 06, 2003
Frase



"Sexo não tem nada a ver com amor. Tanto isso é verdade que o governo
nos fode há anos e não estamos apaixonados por ele..... "
(desconheço o autor)

3:04 AM


terça-feira, julho 01, 2003
Parte 3

Acabada a peça, fomos à quermesse. Tomei quentão, demos risada quando uma amiga nossa mencionou que tinha uma colega que trabalhava na coleta, na coleta de esperma de cavalo de raça. “E como se faz para extrair?”, perguntaram. Nessa hora não pude resistir, tomei da palavra e disse com propriedade “choque no cu”. Todos deram risada, e pediram para eu falar sério. Disse era sério (e de fato era). Tinha aprendido com meu pai, que é pecuarista. Lembro-me que essa técnica me surpreendeu e como todo mundo sabe, as coisas que surpreendem ficam gravadas com mais relevo na tábua da memória. Mas como pediram para eu ser verdadeiro, complementei que, ao menos para gado, a técnica era essa, mas, talvez, para o cavalo, a técnica fosse a punheta. Então nossa amiga veio esclarecer que normalmente se faz uso de uma vagina sintética de égua. Mas ninguém ficou convencido que era só acoplar da vagina de plástico no pau do cavalo e pronto. Sem dúvida que outras formas de estimulação eram necessárias. Foi aí que surgiu na roda que o que se costuma fazer é amarrar a égua, esperar o cavalo montar na égua e, finalmente, desviar o seu pau do cavalo de modo que entre na vagina protética.

Não sei quem foi que supôs que o esperma era colhido da seguinte forma. O cavalo fica metendo na égua normalmente, na hora h, devem pegar o seu pau para botá-lo no recipiente. O trabalho seria feito em equipe. O integrante mais importante da equipe seria o especialista em feições em cavalos. Conseguiria ler o prazer no girar de olhos do cavalo, no contorcer de pescoço, na tonalidade dos sons emitidos. Quando o cavalo estivesse prestes a ejacular, o especialista daria um rápido sinal avisando ao resto da equipe que era para tirar o pau do cavalo e colocá-lo no recipiente.

1:42 AM


domingo, junho 29, 2003
Parte 1

Ontem fui numa festa numa REP chamada Ursa Maior. Open bar, doze reais para homem. Sete para as mulheres. A festa estava boa. As quatro da manhã, a casa inteira cheirava vômito. Uma menina gordinha, baixinha, bonitinha, de casaco preto, simplesmente tombou na nossa frente. Um amigo deu a mão para ela se levantasse, mas praticamente não adiantou. Eu que estava do lado também dei uma ajuda à garota, que não conseguia achar o cigarro no bolso da jaqueta.

Enquanto ela justificava a situação embaraçosa, dizendo que era a primeira vez na vida que ela ficava daquele jeito e tal, eu fui colocando o cigarro na boca dela. Acendi, e recomendei-lhe fumar o cigarro até o fim, seria a melhor coisa para melhorar da bebedeira. Percebi que ela confiava em mim. Deixamo-la em pé, escorada na parede para não cair, enquanto ela fumava o cigarro com uma cara de boa menina. Uns quinze minutos depois ela jogada no corredor, com uma poça de vômito do lado esquerdo, e algum de seus amigos sentado no lado direito, tentando cuidar dela.

Não entendi nada a hora em que cheguei na festa. E fui embora entendendo muito menos. Lembro-me de não sei quem que ficou falando para eu “enfiar o pinto”. Todas as conversas eram abreviadas, eram lapsos de conversa. A grande maioria dos diálogos não passava de clichês. Senti, nesta hora que Hume estava certa: o eu era um feixe de percepções, umas mais fracas outras mais fortes.

De qualquer forma o som estava bom. A banda tocava boa música. Coisas desde o inteligentíssimo Cazuza até Queen. Tive bons momentos quando tocou “Bichos escrotos” dos Titãs. Maior barato: “Bichos escrotos saiam dos esgotos, bichos escrotos venham enfeitar, meu lar, meu jantar, meu nobre paladar”, “Oncinha pintada, coelhinho peludo, vão se fuder”, “Ratos, saiam dos sapatos, dos cidadãos civilizados”.

É música é legal, numa festa como aquela caia bem. Mas devo dizer aqui que sou sim um cidadão civilizado. E mais: acho que é bom ser um cidadão civilizado. Gosto mesmo da civilização, de arquitetura, de filosofia oriental, de pintura, de teatro, de gastronomia. Pena que não é sempre que tenho cabeça para isso.

3:32 AM



Hoje fui ao teatro. A peça foi maravilhosa. Me falaram que era teatro gestual da escola francesa. Assim que soube que ia rolar o tal teatro, já fiquei imaginando que seria a melhor opção para a noite. Sempre é bom um teatro bem feito.

Um amigo meu passou em Casa. E zarpamos para o teatro. Erramos o caminho para chegar no Teatro Municipal. Aliás, erramos diversas vezes. Mas o pior foi o último erro. Estávamos a alguns metros do teatro e, não me pergunte que raciocínio nos levou a tal escolha, entramos numa bifucarção errada, que seguia o sentido oposto ao teatro (e todos sabíamos a direção do teatro). Foi a própria visão do inferno. Uma fila de carros que parecia não ter fim andava vagarosamente, e nem um lugarzinho para estacionar.

Nossos sentidos não queriam acreditar naquilo. Era carro que não acabava mais. Para nós, foi um choque: o teatro gestual era paixão popular! Mas assim que a fila foi prosseguindo, “bom senso”, aliado ao “desconfiômetro” descartou a hipótese de que havia no mundo tanta gente interessada em tal tipo de espetáculo. De fato. O mistério tinha sido solucionado. Uma quermesse, num lugar de Ribeirão chamado Sete Capelas, se descortinava em nossa frente.

Para piorar a situação, a menina que estava conosco no carro estava precisando com urgência ir ao banheiro, para tirar água do joelho. É a pior sensação do mundo, nada podia ser feito. Estava realmente desesperada. Assim, logo que saímos do tráfego em frente à quermesse, paramos em frente a um restaurante, para que ela fosse ser feliz no banheiro.

E ela foi ser feliz. Quando voltou, não pude nem reconhecê-la. Era uma nova mulher, de bem com a vida, disposta, com uma excitação infantil com relação à peça de teatro que iríamos assistir.

Então pela segunda vez pegamos a avenidona que desembocaria no teatro. Combinamos entre a gente que nada tinha acontecido. Decidimos, por comum acordo, que iríamos esquecer do que tinha ocorrido, e que, o que de fato havia acontecido fora que o motorista atrasou para passar em casa. Era passado melhor, mais confortante: qual o problema em adotá-lo como verdadeiro? Lógico que aproveitei a oportunidade para reclamar com o motorista pelo seu atraso.
- Porra meu, você é foda, agora a gente vai chegar atrasado no teatro.
- É que o Anselmo demorou no banho.
- Beleza.

Do pessoal que estava indo, eu era o único que não tinha convite. Além de não ter convite, eu também não tinha carro. Se o teatro estivesse lotado, eu iria ter que inventar alguma coisa para fazer. Como nós estávamos atrasados e o pessoal não tinha estacionado ainda, resolvi sair do carro e ir antes de todos ao teatro, para tentar garantir o meu bilhete.

Deu certo. Fui entrando e dei de cara uma figura estranha, o responsável por conduzir os atrasados aos acentos da peça, de modo a não incomodar nem o público nem os atores. Era um sujeito duns trinta anos de idade, gay assumido, cabelos amarelos, dessas figuras que nunca são vistas em outros lugares que não sejam portas de teatro ou vernissage de arte conceitual.

Ele aproximou-se de mim e falando bem baixinho para eu seguí-lo. Eu disse bem baixinho e com muita tranqüilidade que estava esperando uns amigos, que estavam estacionando o carro. Então ele ficou irrequieto, deu uma contorcidinha e respondeu-me que não poderia entrar depois que a peça já tivesse começado. A fim de acalmá-lo, fui tranqüilamente, como se nada estivesse acontecendo, comprar uma água. O sujeito do bar, um homem gordo de óculos, com aspecto amigável, entregou-me a água e disse-me, baixinho, com um certo de tom de satisfação, que eu poderia entrar na peça com a água. Achei curioso que ele me dissesse isso com tanta satisfação, parecia até orgulhoso, como se dissesse: “Aqui o pessoal confia em você, eu consegui fazer com que meus clientes possam tomar água enquanto assistem ao espetáculo”.

Entramos naquele ambiente escuro e avistei lá na frente às luzes do palco e as duas figuras que não pareciam seres humanos, mas uma nova concepção de ser humano, algo entre o desenho animado, teatro japonês e cinema impressionista alemão. Fiquei deslumbrado. Tudo me pareceu um sonho. Cheguei a sentir vertigens com aquela situação, sentindo uma espécie de emoção rara, um sentimento de beleza onírica. A melodia dos corpos, a música, o figurino, a iluminação, formavam algo de mágico. Sem dúvida, algo de mágico estava acontecendo ali na frente.

O espetáculo foi genial. Talvez uns dos melhores que eu assisti na vida. Considerava-me uma pessoa muito privilegiada por estar ali, sentado, consumindo uma arte perfeita. Quando o espetáculo acabou, senti que eu era uma pessoa melhor, que o mundo não era tão mal como parecia. O mundo oferecia-me suas delícias.

É difícil dizer a peça a que assisti era apenas uma peça de teatro. Os atores tinham uma sincronia perfeita dos corpos, como se seguissem uma partitura, e por muitas vezes o espetáculo se aproximava mais de uma dança contemporânea. A música era lindíssima, e ao mesmo tempo muito estranha, muito música bem moderna, dessas que fazem barulhos estranhos que causam na alma uma sensação de atmosfera irreal, um pouco parecida com algumas músicas de Nana Vasconcelos. A música fora elaborada apenas para a peça. Do início do projeto até a execução da obra foram dois anos. Os dois atores eram os próprios diretores.

Aquilo sim eram dois atores de verdade. Monstros da arte. Não havia uma gota de amadorismo sequer. Eram perfeitos. O domínio de seus corpos pode ser comparado o domínio que um grande músico tem de seu instrumento. O fruto de anos e anos e anos de treino. O ritmo da peça era magistral, absorvia por completo o espírito, gerando no espectador aquela simpatia infinita, base de tudo o que é bom. Alma diante de algo tão maravilhoso, entrega-se, e o tempo deixa de existir.

Como se não bastasse, o conteúdo era claro, limpo, evidente por si mesmo. Cheio de significado. De significado certo, justo. O uso da palavra na peça só iria empobrecê-la.

3:28 AM


segunda-feira, junho 16, 2003
Recreio

Encontrei ontem no recreio do jardim, uma fada. Uma fada linda, linda, linda. Fiquei olhando a fada. E ela ficou fadando para mim. Daí, passado um tempo, nós fomos para longe, para muito longe, num lugar que eu acho que ninguém nunca foi.
Aí eu disse para fada:
- Às vezes eu acredito que quando a gente olha para a Lua, a gente se torna um pouco a Lua.
- Bobinho, porque você fica pensando nessas coisas.
- Às vezes eu acredito que se a gente consegue ver o Sol, é porque há um pouco de Sol no nosso olho.
- Bobinho, desencana.
- Às vezes eu fico pensando que o sentimento de eu nada mais é que um feixe de sensaçõess.
- Que isso! Vem cá e me ama no chão. Quero ser sua. Quero ser sua cadela, sua escrava, quero até mesmo o sofrimento, se esse sofrimento provier por você, pode me comer do jeito que você quiser, pode fazer o que você achar melhor. Pode me bater, pode me chicotear, pode me amarrar, me estuprar, me maltratar. Pode enfiar seu membro na minha boca que eu o chuparei olhando para seus lindos olhos.
- Vai tomar no cu! Sua cadela biscate! Eu estou falando um monte de coisa importante e você, sua fada vadia, só fica falando em foda. Puta que pariu, meu! Cansei, já que você não quer conversa, vem cá. Tira a roupa que eu quero comer esse seu corpo perfeito. Você vai ter o que quer.

6:13 AM



Engoli

Engoli duas copadas de l�grimas esta da manh�, no caf� da manh�, l� pelas onze e meia. Voc� acha que isso � forma de acordar? L�grimas com maconha? Logo no caf� da manh�? N�o, disse para mim mesmo, num di�logo travado c� no cora��o. De hoje n�o passa, tenho que dar um jeito nisso de uma vez por todas. Assim, com decis�o estampada no sobrolho, fui at� a cozinha e preparei uma magn�fica salada.

E comi apenas salada. Degustava cada mordida, sentia os vegetais ro�ando o interior de minha boca. Esmagava com meus molares a cenoura numa mordida leve e ao mesmo tempo decidida. Aquele instante era meu. Era o instante presente: eu e a comida num �love affair� invej�vel. A comida era limpa, t�o limpa que poderia coloc�-la na boca, esperar um tempo, e apreciar cada detalhe, consist�ncia, forma e brilho, tal qual buceta de mulher amada, momentos depois do banho.

Como disse, apreciava o alimento em todas as suas express�es f�sicas. E agora, falando isso, fico a pensar: numa pr�xima vez n�o seria m� id�ia tentar encontrar nos alimentos algo al�m dos encantos sensuais: tamb�m seus encantos espirituais. N�o consigo comer tomate sem ser acometido pela fort�ssima sensa��o de estar comendo algo muito org�nico. Uma gengiva de velha, por exemplo. Cheguei at� mesmo comentar isso com minha mina, o que a fez me olhar com espanto. Mas n�o perdi minha alegria frente � grande salada.

Foi s� olhar para a beterraba para ter certeza que a alegria n�o teria fim! O jogo de cores, a textura, a consist�ncia da beterraba cozida! � muito interessante mesmo. N�o conseguimos macet�-las apenas com a for�a da l�ngua, embora tal miss�o, entregue aos nossos dentes, � motivo de risada. Um exemplo contr�rio a esta benfazeja maciez se encontra no bife servido no Bandej�o Central na semana passada, conhecido popularmente por 007: frio, com nervos de a�o. Um atentado ao bom gosto. Pouca vergonha um bife daqueles! Sei que tem muita gente passando fome no mundo. Mas o qu� o cu tem que a ver com as car�a.

E foi assim, por meio desses pensamentos estomacais, que resolvi seguir a doutrina da maciez da carne. Tanto para a carne comida, como a carne sentida, tida. Explico-me. O term�metro do meu corpo a maciez da minha pr�pria carne. Quanto mais feliz, mais macia percebo a minha carne.

E n�o podemos esquecer que a maciez muitas vezes vem depois de duros esfor�os. Ela nunca vem isolada, mas acompanhada. A carne macia possui uma maior porosidade que a carne comum. Como se n�o bastasse, � menos resistente a fortes impactos. Por outro lado, � sens�vel, assim como uma gelatina, a pequenos abalos. Um lago calmo se reparte em ondas circulares quando uma pedrinha cai sobre sua superf�cie plana.

5:56 AM


terça-feira, junho 10, 2003
Pulmao Cabeludo

Pulm�o Cabeludo j� foi corneteiro, zombeteiro, e j� se mijou de rir da desgra�a alheia. J� foi isso, e j� foi aquilo. Mas aos poucos sinto que ele deixa de existir. Hoje, quando se v� no espelho, nada mais vejo sen�o um borr�o, um "vurto", como dizia a nossa senhora Guiomar Tabeir�o.

Seus passos surdos s�o quase impercept�veis. Sua tosse est� muito abafada pelo excedente de cabelo no pulm�o. Sua vida. Qu� vida? S� pensa na morte. Todos os dias antes de cagar, ele pensa na morte. E s� ela lhe alivia o cora��o bumbumbum.

Pulm�o � como um palha�o sentado no picadeiro ap�s terminado o espet�culo. Ele senta, na imundice das pipocas e come�a com desgosto a fumar um. Olhando para o nada, ele repete para si mesmo. Sexo. Sexo. Sexo.

Corre at� o puteiro e ama por uma noite. Ou melhor, por algumas horas. Melhor ainda, por alguns segundos. Devido a impaci�ncia para ficar muito tempo metendo.

Pulm�o � aquele ser que desce do fundo da podrera e v�m queimar o filme de seu Criador. Eu mesmo.

E o Criador responde: Foda-se o filme.

1:56 AM


segunda-feira, junho 09, 2003
Gasoduto

Antes eu adorava escrever no blog, agora j� estou meio enjoado disso. N�o sei exatamente o que que � que se passa comigo. Acho que � uma coisa simples: sinto falta do gosto de escrever. Tamb�m sinto falta do gosto por falar e conversar, antes adorava conversar, agora j� n�o estou nem a� para isso. Acho que o que falta mesmo � cerveja na minha vida. Tenho bebido pouco nas �ltimas semanas devido graves problemas no est�mago, uma esp�cie de gastrite cr�nica, o fruto podre de uma dieta desequilibrada, a base de cogumelos, anfetaminas, ervas finas, e X-tudos nadando na maionese de madrugada.

Cada um colhe aquilo que plantou. E o apressado come cru. S�o algumas m�ximas que minha l�ngua nunca cansa de recitar para os outros e para si mesma.

Uma coisa que est� me incomodando esses tempos � a falta de tempo. Sinto muita falta do tempo. O tempo, para mim, � um problem�o. A minha no��o de tempo � muito torta. Os problemas futuros chegam at� o presente com facilidade. � com grandes esfor�os da vontade que expulso da minha mente os problemas futuros. Porque se deixar, fico o dia inteiro batendo punheta com os problemas futuros, um h�bito horroroso.

A vida inteira tive medo do futuro chegar. N�o sei se por ironia do destino ou por fatalidade mesmo, ele nunca chegou. Desde de que me lembro como gente sempre vivi no instante agora. Mas n�o pense que eu sei. � preciso plantar para colher. Eis o paradoxo.

� preciso plantar para colher. Mas n�o � preciso colher para comer.


1:50 AM


segunda-feira, junho 02, 2003
�s vezes

Tem vezes que me d� uma bruta vontade de ser uma pessoa simples. De escutar r�dio deitado na cama. De pensar no futuro. De sorrir ao olhar para o c�u. Queria fazer planos e ter esperan�a neles. Queria (um pouco mais no futuro) ter filhos e lev�-los ao zool�gico no final de semana. Gostaria de acreditar na vida e de sonhar com um carro novo. N�o s� sonhar mas lutar e batalhar por este carro novo.

Queria uma mulher de verdade e n�o uma de mentira. Uma mulher bonita, inteligente, que ame a vida e acredite no amor. E, principalmente, que acredite no amor que ela tem por mim. Amarei essa mulher e com ela me casarei, e apesar de toda a maldade no mundo, estaremos sempre juntinhos. E quando o frio chegar, me aquecescerei em seu colo cheiroso.

Amo essa mulher. Ah, se voc� soubesse como eu amo essa mulher de olhar radioso! E como me admiro de sua alegria f�cil, de menina esperta que sabe driblar o mundo. De sua doce leveza e ao mesmo tempo de sua for�a que me faz sentir vivo, muito vivo. Ela vem e marca minha vida.

Para dizer a verdade, meu amigo, amo com dificuldade. Estou longe da perfei��o. Mas isso n�o me impede de melhorar. E isso n�o me impede de ler e gostar de livros de auto-ajuda.

Sei l�! �s vezes tenho um gosto estranho. Por exemplo. Quero que minha vida seja uma novela.

Bricadeira, n�o quero que minha vida seja uma novela n�o. Deus me livre! Mas j� conheci uma pessoa que queria que a vida fosse uma novela. Um drama mexicano, para ser mais exato. Era uma pessoa interessante, que n�o diferenciava o mundo de um palco. Mas, sim, onde eu quero chegar com isso. Ah! Acho que eu estava falando do que eu queria. Pois bem, continuemos:

Queria n�o ter tanta vergonha do que sinto. E queria n�o precisar de escrever aqui meus sentimentos.

Realmente, concordo, n�o preciso, e se escrevo, escrevo porque quero. E se quero: faz� o qu�?

Queria dizer "ent�o �, podemos acabar por aqui" este email. E ent�o ele chega no fim. No fim. E quem est� no fim? Quem? Juro que a finitude de tudo n�o me deixar� mais t�o triste.

Mas isso �s vezes. �s vezes.

3:43 AM


segunda-feira, maio 12, 2003
Reflex�es ou os ilus�rios espelhos da alma

Faz tempo sim que n�o escrevo. As minhas palavras perderam-se num po�o fundo, l� embaixo, na escurid�o do meu sil�ncio. E assim, t�o mergulhado em mim, pela primeira vez posso dizer a mim mesmo que senti saudade. Saudade daquele tempo que definitivamente passou.

Pergunto-me se era de fato mais feliz naquele tempo do que sou hoje em dia. Acho que esta � uma pergunta bastante importante, pois sei que � de nosso costume n�o dar o merecido valor �quilo que temos, e se o passado escorreu entre meus dedos e o futuro se me mostra em miragem turva � tenho o presente. Posso dizer, sem medo de errar, que o presente est� bem na minha frente, diante meus olhos, fazendo vibrar as peles do meu t�mpano. Este � o presente-agora, o presente instante. Mas tem o presente-quase-agora, ou presente altamente potencial, formado basicamente por pessoas e coisas que nos �ltimos dias freq�entam minha exist�ncia e que sobre esta lan�am tent�culos energ�ticos, ou para com�rcio amigo onde ambas as partes saem ganhando ou - o que n�o � raro - para me vampirizar.

Ent�o vamos �s mulheres, ou melhor, � mulher. Bom, se estou com ela s� pela minha rola significa que quando estou com ela n�o sou mais do que uma rola. Sem querer desvalorizar a rola, mas tal modalidade de relacionamento � muito pobre. Ao dar valor apenas ao seu corpo, ao gostoso toque de seus l�bios �midos, acabo por deixar de lado todo o afeto, toda ternura, e toda a vida que, quem sabe, existe por detr�s daquela vertiginosa bunda.

Sendo, pois, nada mais que rola, dispo-me de todos aqueles atributos pelos quais brado, todo retumbante, que sou humano. Embora eu nem sempre nem sempre seja rola, n�o o nego naquele instante de lux�ria inebriante, na imensa alegria inescap�vel do orgasmo. A rola � como uma antena que brota, toda parab�lica, no meio das minhas pernas, um pouco acima do saco. Possui o poder da transforma��o material. Carrega em si a possibilidade de uma nova vida germinar na Terra, planeta t�o fecundo.

A esta altura n�o me resta muito mais al�m de uma primeira pessoa infinitamente solit�ria. Eu. Este EU que me acompanha desde o dia de minha morte, um pouco antes de eu nascer, e vai seguindo comigo at� a pr�xima morte, no dia em que eu morrer.
E quando eu morrer? Viverei atrav�s de meus filhos? Viverei atrav�s de minhas obras? Viverei atrav�s da transmuta��o do meu corpo em adubo? Ou simplesmente n�o viverei mais. Ah, esse EU t�o apegado � mesquinharia da mem�ria, t�o apegado a si mesmo, sempre curvando sobre si lambendo o pr�prio rabo. Ah! esse eu, t�o miseravelmente bobo, mesquinho, tolo. Apegado a coisas t�o pequenas como ele mesmo. Apegado ao seu saber. Apegado ao seu mundinho de bananas. Apegado. Sempre apegado. Mas que sem d�vida ser� apagado. Um delete sobre a minha exist�ncia. Apenas delete: limpo, sem esc�ndalo.
E pensar que estamos no mesmo barco. Na barcarola da morte. Enquanto n�o chega o precip�cio do nada, discutimos David Lynch, falamos mal de Godard, e tentamos dar boas risadas de sei l� o qu�.

� preciso esquecer para viver. � preciso se iludir para viver. � preciso... � preciso... J� que est� vivo: viva!
Viva! Eis a felicidade! Oba! Oba! � assim que quer? � assim? Saltitante? Ent�o vamos saltitar, vamos dan�ando cirandinha em dire��o ao abismo da morte, cair no infinito mar do esquecimento. Iupi! Quero esquecer! � isso a� campe�o! O qu� fazer? Ora, ora, ora, Mr. Magoo! Ora essa, meu bom camarada. Vamos pra frente, que pra tr�s tem gente.

Chega mais: pensa. Ou melhor, n�o pensa e responde: Por que n�o escutar os ideais plat�nicos em Mozart, para em seguida pendurar uma melancia na cabe�a e sair dan�ando no molejo da zabumba? Ah ha! Agora eu te peguei hein? Se n�o, podemos observar algo de interessante no cora��o das trevas. Ou quem sabe na est�tica oca encontrar um al�vio para a oquid�o do mundo? Talvez mais que al�vio: um entretenimento, uma gangorra louca, feiticeira, tal qual brinquedo m�gico sempre a bailar dentro desta barcarola, t�o cheia de risos e de l�grimas, de t�dio, de Boudelaire, de ennui, e de baz�fia.

Mas nunca poderei esquecer, por enquanto, da necessidade. NECESSIDADE. Outra vez: NECESSIDADE. � a �ltima vez: s� para ser enf�tico (nesse mundo onde tudo � show, onde tudo � impressionante, onde tudo � fant�stico, onde filha mata pai e m�e, onde homens-elefantes com saco de papel na cabe�a andam soltos - nesse mundo temos que repetir v�rias vezes uma coisa, como dando marteladas para que algu�m entenda, ou pelo menos percebam a import�ncia por n�s atribu�da a esta ou aquela fatia da vida), portanto repito: NECESSIDADE.

A necessidade, esta tirana, a necessidade, esta tirana, a necessidade, esta tirana. Passo a maior parte do dia dormindo, comendo, pagando conta, fazendo compra, indo de um lugar para o outro, rastejando por dinheiro, tomando banho, fazendo necessidades. Tchau! Se n�o eu vou morrer de desgosto. Quero um balsamo! Por favor, um b�lsamo!

12:55 AM


segunda-feira, abril 28, 2003
A impossibilidade da palavra

Estou na sala de computa��o, ao meu lado algumas pessoas est�o em outros computadores. S�o fantasmas, espectros perdidos na superficialidade do mundo, marionetes de um destino atroz. Este tema, famoso nos idos tempos do romantismo, sacralizado por E. T.A Hoffmann, os Shelleys e outros, ainda merece destaque. N�o podemos dar o luxo de abandon�-los.

Ora, estes homens n�o se cansavam de afirmar que s�o aut�matos todos os que n�o conhecem a grande Filosofia. Seu fundamento: amor e liberdade. Amor? Liberdade? Sim. E estes conceitos chaves s�o bem mais complexos do que sua apar�ncia sugere. Por ora, detenho-me � liberdade. Embora os discursos corriqueiros que lhe dizem respeito n�o passem de verborragias isentas de conte�do, ainda assim t�m o poder extrair das estranhas dos incultos uma raiz de emo��o. Ao escutar que algu�m morreu pela liberdade, a esperan�a aquece o cora��o e a estupidez sobe para a cabe�a.

� por isso que tomo como dado de realidade a exist�ncia de palavras-emo��es. S�o palavras que atuam no sistema emocional, mas que suportadas pela raz�o devido a um outro efeito produzido por ela: uma sensa��o de entendimento. � o tipo de coisa que sai diariamente da boca dos n�scios: "Eu entendo mais n�o t�m palavras para explicar".

O poder afetivo que certas palavras possuem prov�m, sem d�vida, de associa��es pavlovianas simples. A palavra se liga ao seu contexto, tomando de empr�stimo a emo��o da circunst�ncias. A presen�a de uma emo��o, em primeira pessoa ou mesmo tomada do ponto de vista fisiol�gico, n�o � mais complexa do que um salivar de cachorro pavloviano ao escutar a companhia, ou um cachorro abanar o rabo na vis�o da coleira.

Tanto o erudito quanto o artista n�o est�o destitu�dos destes mecanismos. O que diferencia-os � a presen�a de uma caracter�stica a mais, dir�amos, a alma no�tica. Esse acr�scimo da personalidade consiste simplesmente numa postura negativa diante de si e do mundo, uma incur�vel desconfian�a. Seu paroxismo reside no m�todo hiperb�lico de Descartes, cujo efeito � cristaliza��o de uma forma de exist�ncia antes amorfa: o indiv�duo.

Mas essa negatividade n�o suficiente para a sa�de da vida. Seu �ltima conseq��ncia no plano moral seria niilismo suicida, ou cinismo de PH baix�ssimo. Aqui entra o amor.

Nada mais humilhante do que acusar algu�m de possuir o predicado da previsibilidade. E nada mais dif�cil e solit�rio do que a vida daqueles que v�em nos outros apenas espectros de rob�s. Como pode este homem, capaz de prever, isentar-se do imperioso nojo sucitado pela banalidade dos padr�es humanos. De que forma este homem, dotado de excesso de vis�o. Como amar uma mecanismos?

Alguns pensam que a espontaneidade seria o ant�do mais natural para que o homem deixe de ser um produto de um choque mec�nico entre o mundo e seus pr�prios gens. Aqui, mais uma fal�cia, pois tais conceitos n�o guardam rela��o necess�ria. Nada mais espont�neo que o comportamento animal, e ao mesmo tempo nada mais previs�vel.

A liberdade e, em certa medida, a alma, s�o resultados da desconfian�a, do desejo destrutivo, e do sentimento est�tico. Mas, de fato, n�o seriam poss�veis sem um QI elevado e uma capacidade de percep��o intra e extra-ps�quica dividida em duas partes, uma capaz de ver o mundo em conformidade com o social - uma �tica estatisticamente v�lida; e outra que o interpreta sob as coisas sob as lentes desfigurada da idiossincrasia, da fantasia e ou capricho.

11:47 AM


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